Há mais de três décadas que Donaciano Marques Afonso guarda as chaves da capela anexa à Igreja Matriz de Campo Maior. Uma capela forrada de ossos humanos, em cujas paredes se encontram mais de 800 cadáveres. "É um espaço que nos convida à reflexão sobre o que inevitavelmente nos irá acontecer. Ninguém está livre da morte, é essa a realidade com que somos confrontados diariamente", diz o cónego ao DN, enquanto desfia recordações de acontecimentos vividos, por mais estranhos que possam parecer.
Episódios como o de uma turista norte-americana que aproveitou um momento em que se encontrava sozinha no interior da capela para furtar uma caveira. Passado um ano, arranjou forma de a devolver. "Arrependeu-se", concluiu o cónego Donaciano, habituado às mais variadas reacções de quem chega à porta da capela. "Algumas pessoas ficam de tal forma impressionadas que nem têm coragem de entrar. Quem está habituado, já nem estranha."
Ainda há pouco tempo, intrigado face à demora de dois turistas no interior do recinto, decidiu ir ver o que se passava. Dos dois homens, nem sinal. "Estavam a chorar, sensibilizados, pois é isto mesmo que nós somos." Uma frase escrita sobre o altar da pequena capela lembra aos mais distraídos: "Nós ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos."
Nalguns casos, pode dizer-se que a afirmação é seguida à letra. Quando, por exemplo, cai uma caveira colocada na abóbada, há necessidade de a substituir, recorrendo ao contributo involuntário de um dador há muito esquecido no cemitério da terra.
Considerada numa reportagem do jornal norte-americano New York Times como um dos "tesouros" do Alto Alentejo - um "destino [turístico] ignorado" a nível internacional mas "não por muito tempo" - a Capela dos Ossos de Campo Maior foi erguida em 1766 para perpetuar a memória de um acontecimento trágico que ensombrou a vila: a explosão de um paiol situado no interior da praça--forte.
Foi às 3 da manhã do dia 16 de Setembro de 1732. Durante uma trovoada, um raio caiu no paiol e provocou a explosão de cinco mil munições e seis mil arrobas de pólvora. Os estragos foram enormes no castelo, na cerca da vila velha e em muitas habitações. "Passados alguns anos, quando a vila foi reconstruída, surgiu a ideia de recolher estas ossadas para forrar a capela e recordar esse acontecimento", explica Donaciano Marques Afonso.
O "luxo anacrónico" da Pousada Rainha Santa Isabel, em Estremoz, a recuperação do Convento de Flor da Rosa, no Crato, antigo mosteiro da Ordem de Malta agora transformado em unidade turística, e a genuinidade da oferta gastronómica da região constituem alguns dos aspectos destacados pelo New York Times, que se "rende" à monumentalidade de Marvão.
"É uma referência que não me deixa surpreendido", confessa o presidente da câmara, Víctor Frutuoso, recordando que já houve na imprensa estrangeira diversas referências ao património histórico da vila, que chegou a ser "comparada a um conto de fadas".
"Estou a fazer um esforço para que essa visibilidade internacional aumente, pois ainda é muito pequena e este tipo de referências é algo que nos gratifica muito", diz o autarca, apontando o despovoamento do centro histórico como um dos principais problemas a resolver. Víctor Frutuoso revela que o município vai começar a adquirir e vender habitações para incentivar o repovoamento de uma zona onde actualmente não vivem mais de 150 pessoas.
A conclusão de um projecto de modernização de infra-estruturas, no âmbito do qual foram investidos cerca de dois milhões de euros para "esconder" antenas, fios eléctricos e cabos telefónicos, a recuperação da muralha e o lançamento de programas de regeneração urbana e requalificação da envolvente ao castelo são outras apostas na linha do que o autarca define como um "trabalho continuado para a preservação do património".
Sublinhando que a publicação de reportagens em jornais de referência "pode ter algum significado" no aumento de visitas à região, o presidente do Turismo do Alentejo, Ceia da Silva, reconhece que o Alentejo "ainda não alcançou notoriedade internacional" enquanto destino turístico. "Já é conhecido a nível nacional, mas ainda é necessário um grande trabalho de promoção externa", conclui.
Fundado em 1356 por D. Álvaro Gonçalves Pereira, pai do Condestável Nuno Álvares Pereira, o Mosteiro de Santa Maria de Flor da Rosa é um exemplo raro de arquitectura religiosa, civil e militar, em que estão presentes estilos como o gótico, manuelino, mudéjar e renascentista.
Para além da pousada, que funciona numa das alas do conjunto de edifícios, a Direcção Regional de Cultura do Alentejo e a autarquia local reabriram este ano as visitas ao mosteiro, propriamente dito, alvo de um projecto de recuperação e valorização assinado pelo arquitecto Carrilho da Graça.
O espaço passou a albergar um conjunto de peças escultóricas em pedra de temática Mariana, executadas entre os séculos XV e XVII e integradas no espólio do Museu Nacional de Arte Antiga.