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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Cabe aos produtores fazer os possíveis para atenuar os efeitos da Covid-19 e sair desta situação mais fortes. E aos consumidores redescobrir novos momentos de consumo.

Os restaurantes em Portugal fecham aos poucos. Olhamos para os países vizinhos e sabemos que o vinho já falta no supermercado e que nem sempre é reposto, pois a prioridade são os bens de primeira necessidade.

 

As encomendas lá para fora começam a perder o ritmo acelerado em que se encontravam. Primeiro foi a China, que desde janeiro suspendeu todas as compras de vinho até o país voltar a estar funcional. Agora o problema alastra-se para os EUA, devido à imprevisibilidade das decisões que tomam, especialmente quanto ao transporte de mercadorias para o país. E para o resto da Europa cujas fronteiras começam a fechar.

 

Toda a expectativa do real impacto deste vírus mexe ainda com as taxas de câmbio em vários países, fazendo com que, naturalmente, os nossos parceiros de negócios vejam comprometidos os seus objetivos e a satisfação das necessidades de um negócio que é muito dinâmico.

 

O enoturismo, que até há pouco era um forte motor do crescimento do setor, está em suspenso. Mesmo que tivesse aberto, os produtores certamente não teriam visitas. Foi o primeiro ramo do negócio a ser afetado e será certamente o último a recuperar a 100% depois desta crise.

 

E estes são apenas os chamados efeitos de curto-prazo. No entanto, o pós-surto trará outros problemas.

 

Estima-se que 3/4 das empresas de vinho em Portugal sejam microempresas. Uma paragem de vendas para grande parte destas pequenas empresas será muito difícil de ultrapassar. Algumas poderão ter de fechar.

 

Com a esperada diminuição do consumo mundial de vinho durante a atual pandemia, haverá excesso de stock nas adegas que poderão sentir-se tentadas a recorrer ao encharcamento do mercado com os seus vinhos a preços muito baixos. O problema maior será a nível dos brancos e dos rosés de perfil jovem, que se esperam ver consumidos a curto prazo. Sem festejos de Páscoa, sem esplanadas, sem fruição na rua, o consumo destes vinhos será ainda mais afetado.

 

Já no campo, uma paragem do país pode obrigar ao atraso de alguns trabalhos no ciclo da vinha, trabalhos esses que podem comprometer a qualidade da vindima 2020.

 

Por último, haverá também uma redução dos pontos de venda de vinho, fruto do encerramento de operadores de hotelaria e restauração que não aguentem esta crise.

 

O vinho não é um bem essencial, mas o setor vitivinícola tem sido fundamental para a performance positiva do país nestes últimos anos. Fechou o ano 2018 com exportações a crescer 3% face ao ano anterior (para 803M€) e em 2019 bateu novamente o seu recorde, tanto nas exportações, como no mercado nacional. Segundo a ViniPortugal , o objetivo que o setor se propunha atingir, em 2022,estava fixado em mil milhões de euros em exportação de vinhos.

 

Como podemos então ultrapassar a atual crise?

 

Numa primeira instância há que garantir que o setor se mantém em funcionamento e tomar as medidas necessárias para que a produção e a entrega de vinho não sejam interrompidas. Por exemplo, na João Portugal Ramos Vinhos, fechámos a loja e o enoturismo, encorajámos todas as pessoas cuja função assim o permitia a trabalhar a partir de casa, dividimos as equipas de produção e as equipas de campo para minimizar riscos de contágio e permitir rotatividade se for necessário, limitámos acessos à adega, em especial à área de produção, e cancelámos todas as viagens e reuniões externas.

 

Logo após o cancelamento da Prowein (maior feira de vinhos mundial), onde planeávamos reunir com a grande maioria dos nossos parceiros de negócio, optámos por conduzir as mesmas reuniões via conference call e enviámos amostras das novidades e colheitas mais recentes para cada um.

 

Em segundo lugar, tem de imperar o bom senso dos produtores para não recorrerem a técnicas de encharcamento do mercado quando o mesmo voltar à normalidade. Estivemos nos últimos anos numa batalha diária pelo aumento do preço médio dos nossos vinhos – não podemos pôr em causa todo o caminho percorrido.

 

Por último, há que lembrar que o vinho faz parte do dia a dia dos portugueses. Fomos, pelo terceiro ano consecutivo, o país com maior consumo per capita, com mais de metade da nossa população adulta (53%) a consumir vinho mensalmente, segundo os dados mais recentes da Wine Intelligence.

 

Tendo isto em conta, temos de ter sentido de oportunidade enquanto marcas e reinventarmos momentos de consumo. E algumas iniciativas já começam a surgir: o cancelamento de taxas de entregas por parte de algumas garrafeiras, provas de vinho online em direto com enólogos de algumas adegas, publicações de receitas nas redes sociais dos produtores para acompanhar os vinhos em casa, etc..

 

E também o consumidor já demonstra estar a criar novos momentos de consumo. Quantos de nós não vimos nas redes sociais ou até participámos em “brindes virtuais” com amigos e família nesta última semana?

 

Grande parte de nós estará por casa nos próximos tempos. O vinho vai ser nosso companheiro nesta quarentena. Vai ser parceiro das refeições que antes eram feitas à pressa e que agora passam a ter outro ritmo, mais lento e mais apreciado. Vai lá estar para consolar. E também para alegrar.

 

Sim. O nosso setor vai sofrer enormemente, mas cabe-nos a nós, produtores, fazer os possíveis para atenuar os efeitos da Covid-19 neste setor de negócio e sair desta infeliz situação mais fortes. E cabe ao Governo não esquecer este setor e tudo o que o mesmo fez pela economia nacional nos últimos anos.

 

Por último proponho um brinde, virtual, à saúde de todos!

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