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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Medidas de contenção da Covid-19 vão provocar recessão em Portugal. Impacto vai depender da duração da crise e da resposta das autoridades.

A pandemia de coronavírus vai ter um impacto muito negativo na economia portuguesa, com a paragem de vários setores de atividade – com destaque para o turismo, os transportes, a hotelaria e a restauração – e uma quebra acentuada nas exportações para os nossos principais parceiros comerciais. Os economistas, gestores e empresários ouvidos pelo Jornal Económico consideram que ainda é difícil avaliar a dimensão da crise, mas alguns admitem uma contração do Produto Interno Bruto (PIB) de mais de 4%. O impacto final, que terá reflexos também nas contas públicas e na capacidade de financiamento de Portugal, vai depender da duração da pandemia e da capacidade de resposta das autoridades nacionais e europeias, que vai ditar a velocidade da retoma da economia após o fim da pandemia.

 

“Os dois elementos cruciais serão o tempo que o lockdown vai durar e o grau de destruição da atividade económica que entretanto tiver lugar. O que vai depender da rapidez, montante e targets da atuação das autoridades”, disse ao Jornal Económico o ex-presidente do IGCP e atual chairman dos CTT, João Moreira Rato. “O impacto na economia será muito dificil de prever neste momento”, admite Moreira Rato, que acredita, no entanto, que em Portugal será mais profundo do que a queda de 4% que é estimada para a economia europeia em 2020, por alguns bancos.

 

Por sua vez, a professora universitária Susana Peralta considera que a experiência da China permite ter uma ideia do impacto económico da pandemia, embora com as devidas diferenças. “A produção industrial caiu 13,5% em apenas dois meses, as vendas a retalho caíram 20,5% em relação ao mesmo período de 2019, e o investimento caiu 24,5%. É difícil extrapolar estes números para o que vai acontecer nos próximos meses, porque tudo depende da duração das medidas de contenção e do tempo que a economia vai demorar a recuperar desta crise tão repentina e abrupta”, defendeu a economista. “Em Itália, embora não haja ainda números oficiais, porque a crise é mais recente, alguns analistas estão a falar duma contração do PIB de 10 a 15% neste período de lockdown”, referiu Susana Peralta, acrescentando que é “importante perceber que o impacto que conhecemos na China foi observado numa fase em que a crise estava ainda cirscunscrita ao nível geográfico”. Agora que se tornou mundial, salientou, “é provável que o impacto se multiplique, e isto vai ser muito pior na UE e EUA que estão agora também a aterrar no pior da crise”.

 

O bastonário da Ordem dos Economistas, Rui Leão Martinho, considera que “o impacto vai ser relevante em todos os sectores, em todas as regiões, quer a nível das empresas, quer ao nível das famílias”, defendeu. “Somente com as medidas corretas da parte do Governo, da União Europeia e do BCE se poderão ajudar capazmente os milhares de micro, pequenas e médias empresas”, disse.

 

O JE ouviu também empresários, gestores e outros profissionais que lidam com o dia a dia das empresas. Luís Mira Amaral, economista a ex-ministro, acredita que os setores mais afetados serão o turismo, os transportes, o setor petrolífero e a banca. Mira Amaral considera que esta crise é a “oportunidade” para avançar com as chamadas eurobonds, mas não está otimista. “Basta ver o que aconteceu com o orçamento europeu, que tem valores irrisórios”, disse.

 

Marco Galinha, CEO do Grupo Bel (acionista do JE), considera que é “demasiado cedo para fazer qualquer antecipação de cenários económicos pós-Covid 19”. “Se é certo que já várias personalidades se referiram à situação atual como um ‘estado de guerra’, creio que, sem as medidas adequadas, a nossa economia acordará deste pesadelo como se de uma guerra efetivamente se tivesse tratado. As medidas já anunciadas dificilmente farão frente às dificuldades sentidas pelo nosso tecido empresarial e, consequentemente, pelos trabalhadores. Pecam por escassas e por tardias”, diz o patrão do grupo BEL.

 

Nesta conjuntura, Pedro Baltazar, CEO da Nova Expressão, defende que as empresas devem “perceber que têm de incorporar de forma rápida nos seus administradores e quadros perfis de profissionais com mentalidades mais abertas às mudanças que aí vem, após o fim desta pandemia, e estruturassem as suas empresas com projetos de médio e longo prazo que as preparem para as alterações ainda mais rápidas que o processo digital e tecnológico já tinham trazido e que invistam ainda mais na capacidade humana”.

 

O advogado Agostinho Pereira de Miranda, fundador da Miranda, considera que “se a Europa não for mais solidária e ambiciosa, a emergência sanitária que estamos a viver poderá resvalar progressivamente para uma tragédia económica, social e até política”, defende. Já António Brochado Correia, presidente da PwC Portugal, considera que as medidas do Governo “estão a ser incrementais”. “Admito que um plano mais arrojado e abrangente seja necessário”, disse.

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