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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Especialista em geopolítica e professora em Standford, Anja Manuel diz-nos que a economia mundial está cada vez mais interligada e que é impossível separá-la. Critica Trump e deixa o alerta em relação à China. Sobre Portugal, diz que tem uma força laboral qualificada, bons impostos e abertura à tecnologia.

A especialista em geopolítica Anja Manuel considera que Portugal está bem colocado para ser um hub tecnológico na União Europeia, até porque a resposta aos atuais desafios que se colocam globalmente não passa pelo protecionismo. “Estamos a viver um período em que as fronteiras significam cada vez menos”, afirma.

 

Co-fundadora de uma empresa de consultoria juntamente com a ex-secretária de Estado norte-americana Condoleezza Rice e o ex-secretário da Defesa dos Estados Unidos Robert Gates, Anja Manuel considera que a globalização e a integração são uma realidade cada vez mais premente, mas que é necessário resolver o problema de quem foi ficando para trás.

 

“Durante décadas tivemos mais globalização, mais comércio, mais integração e todos nós beneficiámos com isso, pensámos que era uma coisa ótima. Acontece que a globalização deixou muitas pessoas para trás e isso é um problema real com o qual precisamos de lidar”, defende.

 

“Nos EUA, um homem branco com uma educação ao nível do secundário ou menor, vive pelo menos 10 anos menos do que um homem com educação superior. Então, isto é real. É um problema de facto. Infelizmente, o que acontece é que muitas das pessoas que estão consternadas porque a globalização não funcionou para elas foram atraídas por políticos tanto da extrema-direita como da extrema-esquerda. Disseram-lhes: é culpa daquele país, não tens o teu emprego por causa do México ou por causa da China e temos que fechar as nossas fronteiras. Temos um governo que acredita em grande parte nessa filosofia e está a fazer muito para fechar as nossas fronteiras comerciais, de uma forma que acredito não vai ajudar as pessoas que estão a tentar ajudar”, afirmou, em conversa com jornalistas, em Lisboa, à margem da conferência “The role of Portugal as a global competitor”, organizada pela Liberty Seguros e pela consultora PSO.

 

Recupera um episódio após os atentados terroristas de 2001 para ilustrar como os EUA se encontram interligados: “Depois do 11 de setembro, os EUA tiveram que fechar as fonteiras com o Canada e o México por razões securitárias. Depois de três dias ninguém em Detroit conseguia produzir um carro. As nossas cadeias de fornecimento estão tão integradas que não há forma de nos fecharmos”.

 

“Não há forma de voltarmos a uma situação do seculo XIX e é insensato tentar”, garante.

 

Para a especialista em geopolítica e professora na Universidade de Stanford, com a integração económica, a política comercial “está muito mais complicada do que era antes”.

 

“Antes costumávamos dizer: esta empresa é portuguesa ou é espanhola. Agora, o que é a Google? É americana? Sim, mas atua em centenas de países, tem uma maior quota de mercado na Europa do que tem nos EUA”, exemplifica.

 

Neste sentido, aponta Portugal como “bem colocado” para beneficiar como “um ótimo hub para a tecnologia, dentro da União Europeia”. Justifica: “Tem força laboral altamente qualificada, bons impostos para as empresas, abertura à tecnologia, todas as peças”.

 

Anja Manuel sublinha o investimento da Google em Portugal, não vendo razões “para que não venha a ser maior”.

 

“Se Nixon tivesse twitter, era assim [como Trump] que ia ser”

 

Sobre o presidente norte-americano, Donald Trump, afirma que erra quando critica a ordem multilateral.

 

“Este é o primeiro presidente que temos que não parece ligado à ordem internacional, não sabe bem como lidar com isso. É um pressuposto para qualquer político, democrata ou republicano, pode ser critico da ONU, mas sabe que ela vai continuar a existir; pode ser critico da Organização Mundial do Comércio, mas, no final, é melhor isso do que ter navios militares a disparar por conflitos comerciais”, diz, acrescentando que, “pela primeira vez, temos alguém que não tem experiência prévia em política e que não compreende como essas instituições nos beneficiam. Ele vê “’uau, América paga tanto dinheiro para o orçamento da ONU, do FMI’ e não entende que é um mundo muito complicado e é bom ter amigos”.

 

No entanto, a China obriga-a a reconhecer que “o Presidente está correto em levar a sério os desafios que vêm” do Império do Meio. “Entre todos os países, a China não está a jogar pelas regras do comércio internacional”, defende, sublinhando a perspetiva de crescimento do seu poder global – a par do da Índia.

 

“Há muitas coisas que devíamos fazer, formas mais subtis. Por exemplo, uma empresa norte-americana, quando compete na China, muito frequentemente a sua propriedade intelectual é roubada, muito frequentemente não consegue competir num ambiente justo”, diz.

 

“Conheço muito poucas empresas estrangeiras que são realmente bem-sucedidas na China”, avisa.

 

Tal não significa, contudo, que o investimento chinês no estrangeiro “não seja bem-vindo”, considerando impossível evitá-lo, até porque “há muito capital envolvido” e fomenta a economia. No entanto, “não devemos ser ingénuos sobre os objetivos” de Pequim, alerta.

 

Ao analisar a democracia norte-americana, Anja divide-se na avaliação. “Está atualmente mais forte e mais fraca”, diz. Como?

 

“Vê-se a força das instituições quando estão a ser testadas e as nossas estão a ser testadas todos os dias. Os nossos fundadores criaram um sistema onde a separação de poderes é real. Todo esse equilíbrio está a funcionar. Dou-lhe alguns exemplos de coisas que estão a funcionar bem: a ordem executiva do Presidente Trump para impedir a entrada de indivíduos de alguns países muçulmanos foi derrubada imediatamente pelos tribunais. Isso é a separação de poderes, a democracia a funcionar”, defende.

 

Questionada se os ideais de Donald Trump bebiam inspiração no antigo presidente norte-americano Andrew Jackson, a consultora gracejou: “Em termos de America First, há certamente alguma coisa semelhante a Andrew Jackson. Mas em paranoia que ouvimos desta Casa Branca, a ideia de que ‘é meu inimigo, está a atacar-me’, parece-se muito com Richard Nixon”.

 

“Várias pessoas disseram-me: se Nixon tivesse twitter, era assim [como Trump] que ia ser”, afirma.

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