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CABEÇALHO

Saída do Reino Unido da União Europeia pode causar "rombo" nas vendas das empresas portuguesas e afetar IDE e remessas.

Brexit ameaça 'roubar' 2,3 mil milhões de euros às exportações nacionais
Exportações portuguesas para o Reino Unido podem sofrer um rombo entre 15% e 26% se a saída britânica da União Europeia ocorrer sem acordo mútuo.

O Brexit poderá custar à economia portuguesa qualquer coisa como 2,3 mil milhões de euros anuais só em perdas de exportações nacionais para o Reino Unido, de acordo com um estudo encomendado pela CIP - Confederação Empresarial de Portugal à consultora EY, a que o Jornal Económico teve acesso.


"A médio-longo prazo, a alteração do quadro de relacionamento entre o Reino Unido e a UE [União Europeia] encerra um risco forte para as exportações de bens e serviços portugueses. De acordo com os resultados do estudo, a alteração do quadro de relacionamento bilateral pode resultar em reduções potenciais das exportações globais entre cerca de 1596 e de 2696, dependendo do tipo de relacionamento futuro que vier a ser estabelecido", avisa o documento elaborado pela EY.


Este é o pior cenário, em que o Reino Unido sai da UE no modo mais conflituoso (hard Brexit) e em que as duas partes não chegam a acordo com um acordo comercial bilateral, voltando-se aos velhos tempos das fronteiras e das barreiras alfandegárias e contabilizando a contração de consumo interno que o mercado britânico deverá sofrer nesta eventualidade.

 

Tendo em conta que as exportações portuguesas para o Reino Unido no ano passado foram de 8.884 milhões de euros, as quebras de exportações para este destino caso este cenário se confirme poderão oscilar entre cerca de 1,3 mil milhões de euros e cerca de 2,3 mil milhões de euros.


Numa perspetiva de uma saída controlada e mais negociada do Reino Unido da EU, "a análise realizada permitiu verificar que os efeitos potenciais do Brexit na economia portuguesa podem ser significativos, com reduções potenciais de exportações globais de bens e serviços para o Reino Unido entre -1,196 e -4,596, de fluxos de Investimento Direto Estrangeiro (IDE) com origem no Reino Unido entre -0,596 e -1,996 e de remessas de emigrantes com origem no Reino Unido entre -0,896 e 3,296, decorrente da contração prevista para a economia britânica no horizonte do período de transição", o qual ainda não está negociado entre as duas partes. Recor- de-se que a última data para esta saída se estende até 31 de janeiro de 2020.


Neste caso, as perdas de exportações nacionais para o mercado britânico ascenderiam a qualquer coisa entre cerca de 100 e cerca de 400 milhões por ano.


Há ainda a acrescentar as perdas previsíveis em termos de remessas de emigrantes do Reino Unido para Portugal, que no ano passado se fixaram em cerca de 344 milhões de euros. Neste capítulo, as previsões de quebra apontadas pela EY são mais diminutas, oscilando entre cerca de três milhões de euros e cerca de 11 milhões de euros por ano.


Por fim, as perdas previsíveis no capítulo do IDE do Reino Unido no nosso país são mais difíceis de apurar. Nos últimos cinco anos (2014-2018), o IDE britânico em Portugal totalizou cerca de 1.580 milhões de euros: se esses valores se mantivessem no quinquénio 2020-2024, as quebras originadas pelo Brexit estimadas pela EY poderiam variar entre cerca de sete milhões de euros e cerca de 30 milhões de euros por ano.


"A análise dos impactos potenciais do Brexit na economia e nas empresas portuguesas enfrentou uma dificuldade fundamental na medida em que, implícita ao Brexit, está a desconstrução do atual modelo de relacionamento comercial europeu, para a qual não há precedentes históricos que possam ser utilizados para simular os efeitos deste processo. Foram, por isso, utilizadas diversas abordagens para procurar ter uma visão mais abrangente dos impactos que se poderão fazer sentir e superar as lacunas de que cada uma das abordagens individuais padece", adverte a EY neste estudo para a CIP.


Os responsáveis por esta análise defendem que, "mesmo considerando que as magnitudes destes efeitos devem ser lidas com cautela, é claro o sinal de que os efeitos para Portugal podem ser muito significativos, tendo em conta que o Reino Unido é o quarto mercado de destino das exportações portuguesas de bens e o primeiro das exportações de serviços, sendo os saldos da balança comercial muito positivos para Portugal".


"A desvalorização da libra face ao euro, que tem ocorrido desde a realização do referendo (a libra já desvalorizou cerca de 1496 entre o referendo e o início de setembro deste ano) e que pode agravar-se quando a saída dos britânicos da União Europeia se concretizar, e a consequente quebra do poder de compra dos britânicos, representa também um risco significativo para Portugal, dada a importância do turismo para as exportações de serviços. O Reino Unido é, ainda, o quarto país com maior IDE em Portugal e a terceira principal origem das remessas de emigrantes recebidas em Portugal", assinala o estudo encomendado pela CIP.


Os produtos nacionais exportados para o Reino Unido com maiores riscos de quebra com o Brexit são os produtos informáticos, eletrónicos e óticos; equipamento elétrico; e veículos automóveis, reboques e semirreboques. O segundo grupo com um grau de exposição médio a este risco integra os produtos alimentares; as bebidas; os produtos da indústria do tabaco; os têxteis; os artigos de vestuário; o couro e produtos afins; o papel e cartão e seus artigos; os produtos farmacêuticos e preparações farmacêuticas de base; os artigos de borracha e de matérias plásticas; outros produtos minerais não metálicos; metais de base; produtos metálicos transformados, exceto máquinas e equipamentos; máquinas e equipamentos; e mobiliário.


No que respeita à especialização produtiva ao nível dos bens, a análise da EY para avaliar os impactos potenciais ao nível regional identificou que enfrentam maiores riscos decorrentes do Brexit as regiões do Alto Minho, Cávado, Ave e Tâmega e Sousa, seguindo-se as regiões de Terras de Trás-os- -Montes, a Área Metropolitana do Porto e Beiras e Serra da Estrela.


Ao nível dos serviços, as regiões que poderão estar em maior risco com a saída do Reino Unido são a Área Metropolitana de Lisboa, o Algarve e a Madeira. Neste capítulo, a Área Metropolitana do Porto e a Região de Coimbra foram também sinalizadas pela exposição a este risco.

Setores alimentar e farmacêutico podem ganhar quota
Estudo da EY aconselha a que seja desenvolvido um esforço para que Portugal considere o Reino Unido um parceiro económico após a saída da UE.

Como em cada medalha há sempre um reverso e em cada ameaça está sempre à espreita uma oportunidade, também no caso do Brexit a economia portuguesa pode beneficiar, não havendo apenas efeitos negativos a contabilizar com a saída previsível do Reino Unido do espaço comunitário. Assinalando que este será sempre um processo assimétrico e de longa duração nas negociações, consequências e impactos, o estudo encomendado pela CIP à consultora EY recomenda, em primeiro lugar, "um esforço pró-ativo de valorização do Reino Unido como parceiro económico de Portugal".


"A experiência portuguesa noutro momento recente de alteração do quadro institucional do relacionamento económico da Europa, o alargamento a centro e leste da União Europeia, concretizado a partir de 2004, sugere, com efeito, que os riscos de perda da interação real quando ela é forte e tendencialmente superior à interação potencial são muito elevados e exigem um ativo e cuidado acompanhamento", relembrando que "a concretização da perda de uma parte substancial da interação económica entre Portugal e a Alemanha para o novo espaço da Europa Central constitui um importante aviso à navegação' na mitigação das ameaças do Brexit".


Por isso, os autores do estudo aconselham "a afirmação transversal de Portugal como parceiro do Reino Unido na União Europeia". No seu entender, isto traduz-se "na defesa e estímulo de velhas e novas realidades com valor relevante, bem como na defesa, no processo negocial, do melhor, mais profundo e alargado acordo possível. Tudo isto, conjugado, "pode contribuir quer para mitigar a materialização de muitos riscos quer para potenciar muitas oportunidades".


"A estimativa dos efeitos possíveis do Brexit, nomeadamente na dimensão da identificação das zonas de risco mais elevadas, ao nível dos produtos e das regiões, sugere com clareza que o Brexit pode, mal e passivamente enfrentado ou sofrido, gerar alguns impactos específicos visivelmente negativos, tal como pode, bem compreendido e ativamente enfrentado e aproveitado, induzir efeitos muito importantes de revitalização económica e social, da região do Porto e Douro à Madeira, da renovação competitiva das indústrias ditas tradicionais aos novos serviços pessoais e empresariais, da região de Lisboa ao Algarve, do imobiliário ao turismo", asseguram os autores deste estudo a que o Jornal Económico teve acesso.


De acordo com a EY, "potenciar esse papel de parceiro de Portugal pode permitir (...), por um lado, explorar oportunidades de empresas portuguesas substituírem, enquanto fornecedores do Reino Unido, produtores localizados noutros países da UE, potenciando a integração de Portugal em cadeias de valor ancoradas no Reino Unido". E a consultora sublinha que "potenciar esse papel de parceiro do Reino Unido na UE pode afirmar também Portugal enquanto destino de fluxos de IDE com origem no Reino Unido, seja de operadores britânicos, seja de operadores e empresas de outros países que, até agora, valorizaram a presença na Europa com uma localização no Reino Unido e pretendem manter a sua presença na UE".


"Os impactos potenciais estimados ao nível dos produtos indicam que atividades como as alimentares e as químicas ou farmacêuticas comportam produtos em que parecem existir oportunidades efetivas de Portugal substituir outros países enquanto fornecedor do Reino Unido que, exploradas com sucesso, podem permitir uma difusão transversal das experiências. A afirmação de Portugal enquanto destino de investimento, podendo esta oportunidade ser transversal, coloca-se com particular acuidade no domínio dos serviços às empresas e dos serviços financeiros", conclui o estudo da EY.

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