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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

A AICEP, liderada por Luís Castro Henriques, contratualizou ontem investimentos de 400 milhões de euros que vão criar 315 empregos.

"AICEP só trabalha captação de base exportadora"

Luís Castro Henriques garante que o investimento captado vai ter "muitíssimo" valor acrescentado bruto, ainda que no curto prazo possam induzir algum acréscimo de importações. Mas no futuro será só exportações.

A Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) contratualizou quinta-feira investimentos de 400 milhões, que impulsionam o total do ano para 1.114 milhões, geradores de 4.300 postos de trabalho. Luís Castro Henriques, presidente da instituição, explica o momento.

Falam em recorde de investimento. Mas é sustentável?
É. Nós temos, neste momento, um 'pipeline' de cerca de 2.500 milhões e uma grande diversificação da base de investidores. E vemos diversificação em termos de sectores. Este é o primeiro ano em que se começa mesmo a sentir a contratação em serviços e em I&D em grande escala e isso vai-se manter. Posso dizer que o 'pipeline' em I&D continua fortíssimo e em serviços, em centros de engenharia e em centros de serviços partilhados, ainda mais.

O investimento em centros de serviços não é mais arriscado no sentido de que pode ir embora mais depressa?
Nem sempre é tão óbvio, porque a certa altura tornam-se centros de 'knowhow'. E se estivermos a falar de centros de engenharia e de I&D posso garantir que é muito difícil mover grandes grupos de talento. Portanto, a partir do momento em que começa a angariar talento num sítio, começa a gerar 'know how' nesse sítio.

Nos centros de partilhas não é assim. Houve uma altura em que Portugal parecia que queria muito esses investimentos.
Quando cheguei à agência tinha-mos 17,6% de desemprego à frente e esses [centros] criam emprego. Mas uma coisa engraçada é que muitos desses foram primeiros passos para essas empresas criarem centros de engenharia e de desenvolvimento de software em Portugal, onde entra o 'know how', que é muito difícil mudar. Normalmente uma fábrica está planeada para estar 25 anos num sítio. Agora, quando se fala em gerar 'know how' de pessoas e de ter um ecossistema com universidades, o ecossistema vai-se renovando, o que torna difícil criar noutro sítio. Também por isso é tão difícil trazermos para cá a primeira vez.

Dos 1.114 milhões contratualizados este ano qual é percentagem de investidores novos?
Novo, novo, estamos a falar de uma proporção que é menos de metade. Mas, por exemplo, a Hanon vai trazer uma linha de negócio completamente nova - compressores eléctricos para mobilidade eléctrica - para exportação. Mesmo um investidor como a Hanon, que já cá estava, está a trazer um negócio completamente novo. A STE é um 'first timer' [investidor novo].

E quanto é português?
O nosso 'pipeline', historicamente, era 45% português e 55% IDE [investimento directo estrangeiro]. Do 'pipeline' evolutivo que temos tido, hoje em dia a proporção é 30/70. E estamos a aumentar o investimento português. Agora, em proporção estamos a aumentar muito mais o estrangeiro. Mas há um outro aspecto. Primeiro, a tal diversificação de clientes, de sectores e de tipologias: indústria, I&D e serviços/engenharia. O segundo aspecto, e este ano é a prova disso, é a diversificação geográfica. Temos recebido muito investimento, e bom, de França, Alemanha, Espanha, mas começamos a ter cada vez mais projectos coreanos, americanos, canadianos, brasileiros, japonês e até indiano.

Estaremos a beneficiar, de alguma forma, do fechamento de alguns outros mercados na Europa nomeadamente a investimentos chineses?
Para estes contratos [assinados quinta-feira] não sentimos. Sentimos claramente que somos um país aberto a investimento, e isso os investidores dizem-nos. Em Portugal não há o conceito de investidor estrangeiro na lei, o que quer dizer que os investidores cá têm exactamente os mesmos direitos do nacional. O facto de não haver diferenciação mostra como as regras são iguais para todos. O que avaliamos são bons projectos, sejam portugueses ou estrangeiros.

Qual é a taxa de quebra dos investimentos, os que foram contratualizados mas não foram executados?
Há uma taxa de quebra histórica que tem vindo a decrescer por dois motivos: o primeiro é que as próprias empresas, sobretudo as que se candidatam a este tipo de apoios, são muito mais fortes, têm muito mais músculo e resiliência; e o segundo resulta da estratégia que temos seguido, nós temos caçado em segmentos que temos a certeza que têm muito mais necessidade de fazer execução.

Conhecem melhor os mercados?
Conhecemos muito melhor os segmentos que nos interessam, em que somos particularmente competitivos. Há uns anos estava-se a caçar de uma forma muito mais alargada. A captação de investimento seja nacional, seja estrangeiro é um negócio de pesca por arpão, e não de pesca por arrastão.

A taxa de quebra é de quanto?
Já tivemos anos em que a taxa de quebra chegou aos 30%. Mas a taxa histórica está à volta dos 20%. Agora, o facto de estarmos a segmentar mais a captação gera uma redução de 20% na quebra.

A AICEP começou a trabalhar de outra forma?
O enquadramento do funcionamento da AICEP tem-se mantido. Agora, estamos a receber os resultados de três anos de angariação brutais. O 'pipeline' tem sido fortíssimo. Creio que houve claramente uma estratégia da AICEP de segmentar muito bem o universo de actividades em que o país é competitivo e trabalhar bem com os nossos factores competitivos. E temos mais presença no território para angariação.

O primeiro-ministro lançou o repto para que 2019 seja novo ano recorde e que seja ultrapassado também em 2020. É possível ou está a colocar a fasquia muito alta?
Não é fácil. Mas com o actual 'pipeline' que temos em angariação acho que temos condições de tentar bater outra vez o recorde. Para 2020 ainda temos muito trabalho pela frente, mas continuando a trabalhar da mesma forma, essa é uma boa ambição para mim e para a agência.

Estes investimentos vão gerar VAB (valor acrescentado bruto) relevante?
Muitíssimo.

Não tem muita importação à mistura?
Estes investimentos são todos de natureza exportadora, hoje em dia, a agência só trabalha em captação de investimento de base exportadora. E quanto maior for o grau de inovação, maior vai ser o VAB. Mas isto induz importações? Sim, no curto prazo. A montagem destas fábricas precisa de equipamentos que não são feitos em Portugal. E isso sente-se no imediato nas importações, em que há acréscimo, mas a médio prazo o impacto é todo nas exportações.

"A captação de investimento é um negócio de pesca por arpão, e não de pesca por arrastão."
"Em Portugal não há conceito de investidor estrangeiro na lei. Os investidores cá têm exactamente os mesmos direitos."

Investimentos
400 milhões terão bónus fiscal de 31 milhões
A AICEP contratualizou quinta-feira, 20 de Dezembro, cinco investimentos, que vão gerar 315 postos de trabalho. O valor do investimento ascende a 400 milhões, e para estes contratos os benefícios fiscais totais serão de 31 milhões de euros.
Font Salem investe 40 milhões
A espanhola Font Salem, que tem a cervejeira em Santarém que foi outrora de Sousa Cintra, pretende investir 40 milhões para aumentar a capacidade da instalação. O que vai permitir aumentar a produção anual de refrigerantes e cervejas de dois para 3,6 milhões de hectolitros. Serão criados 51 empregos.
Hanon com nova linha de negócio
Em Palmela, tal como o Negócios já tinha avançado, a coreana Hanon vai criar uma nova unidade industrial para compressores eléctricos. O investimento é de 48,3 milhões de euros, para criar 40 postos de trabalho. Este projecto não terá benefícios fiscais, apenas incentivos financeiros de 12 milhões.
Plásticos franceses em Viana do Castelo
Uma nova unidade para produzir peças e componentes em plástico para a indústria automóvel é o investimento no qual a francesa STE pretende injectar 10,1 milhões. Terá 21 postos de trabalho.
Somincor soma mais investimento
Mais um projecto de investimento da mineira canadiana na Somincor. Agora propõe-se investir 256 milhões de euros para aumentar a produção de zinco. São mais 38 postos de trabalho.
TMG Automotive é caso nacional
Um outro contrato assinado foi com a TMG Automotive para a criação da segunda unidade industrial da TMG para produção de tecidos plastificados. Os 46 milhões de investimento criarão 159 empregos.

Navigator com crédito fiscal até 17,3 milhões
O Governo aprovou esta quinta-feira o contrato fiscal de investimento a celebrar entre o Estado Português e a Navigator Pulp Figueira, resolução que "estabelece a concessão de um benefício até 17.278.657 euros através de crédito fiscal em sede de IRC", refere o comunicado divulgado no final da reunião do Conselho de Ministros.
A The Navigator Company avançou com um investimento de 85 milhões de euros na sua fábrica de pasta de papel na Figueira da Foz, com vista à melhoria da eficiência e ao aumento da capacidade de produção.
O grupo concluiu este ano o projecto, que arrancou ainda no primeiro semestre, passando aquela unidade de uma capacidade de produção nominal de 580 mil toneladas/ano para 650 mil toneladas/ano.
No ano passado, na apresentação das contas de 2016, o grupo tinha revelado estar a negociar com a AICEP incentivos entre 14 e 17,5 milhões de euros no âmbito deste investimento, respeitantes principalmente a incentivos fiscais.
As mudanças na política florestal, no sentido da redução da área de eucalipto, chegou a fazer o grupo hesitar no avanço deste investimento, tendo acabado por apresentar uma candidatura a um conjunto de incentivos financeiros e fiscais à AICEP.
Em Outubro passado, a Navigator fechou também um contrato de financiamento com o Banco Europeu de Investimento (BEI) no valor de 40 milhões de euros, para a modernização da fábrica da Figueira da Foz. Na altura, a empresa detalhou que o acordo vai permitir "aumentar a capacidade de produção em 12% (70 mil toneladas por ano), reduzir as emissões de poluentes e aumentar a eficiência na utilização da energia e dos recursos".
Além desta fábrica, o grupo concluiu também este ano o investimento de 121 milhões na unidade de Cacia.

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