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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

O aviso foi feito pelo Banco Central Alemão, o Bundesbank, que até é conhecido e reconhecido por ser muito conservador a fazer previsões. Dentro do seu estilo germânico muito ponderado, veio de Berlim a notícia de que é altamente provável que a recessão alemã se concretize (dois trimestres consecutivos de contração trimestral do PIB) já no terceiro trimestre deste ano de 2019.

Se nesta terça-feira o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, anunciou ao mundo que a recessão podia estar a chegar, veio logo no mesmo dia o Banco Central Europeu (BCE) corroborar a informação e alertar para o problema que poderá viver todo o conjunto da zona Euro e da União Europeia. Abana a Alemanha mas treme toda a Europa.

 

Podemos, por cá, andar entusiasmados com o crescimento económico anunciado pelo Governo de 1.8% no segundo trimestre, inclusive acima da média da zona euro, ou por termos 76% das obrigações da dívida em juros negativos. Podemos, claro.

 

Andamos todos com a mente cativada, que é algo que Mário Centeno faz bem, pela alegria destas notícias anunciadas pelo Ministro das Finanças português quando estamos bem perto de eleições legislativas.

 

Existe medo mundial de uma nova recessão nos mercados. É factual. Basta vermos que, para além da Alemanha, temos mais sete economias à escala global no radar da recessão técnica. Três europeias: A já referida Alemanha, a Itália e o Reino Unido; Na Ásia temos Hong Kong e Singapura a pisarem o “vermelho”; Na América Latina a cruz é carregada pela Argentina, Brasil e México. São 8 no total. Oito preocupações económicas que agitam todo o mundo em euros, dólares, pesos ou reais.

 

Focando no fiel da balança económica europeia, a Alemanha, é sabido que as tensões comerciais entre a China e os Estados Unidos são um fator indesmentível para a penalização da economia alemã, que está muito dependente das exportações e destas ligações comerciais. A guerra comercial entre os Estados Unidos e a Europa também não favorece ninguém, muito menos a campeã do rigor orçamental europeu. E o Brexit? Claro, a saída do Reino Unido da União Europeia causa danos, prejudica e complica.

 

É preocupante para Portugal, não esqueçamos o foco.

 

A nossa economia portuguesa está altamente sincronizada com a alemã. Sempre que há uma recessão germânica conseguimos sentir as ondas de impacto que acabam por se evidenciar diretamente, mais tarde ou mais cedo, por causa das exportações e dos grandes investimentos que os alemães têm no nosso país.

 

Atenção a algo fundamental sobre esta análise de impactos. Esta análise não é ideológica e muito menos partidária. Isto não é a direita, o PSD e o CDS, contra a esquerda do PS, PCP ou BE. Isto são factos. Seja a direita ou a esquerda a governar, a história mais recente prova que Portugal dificilmente se livra de um embate direto e indireto de uma qualquer recessão alemã.

Diretamente, podemos também ver que, anualmente, a Alemanha compra muitos milhões de euros produzidos em Portugal sendo um dos nossos principais investidores. A Alemanha é mesmo o terceiro maior cliente dos bens e serviços vendidos por Portugal ao exterior e isto demonstra parte do porquê de termos no mercado germânico uma faturação de quase dez mil milhões de euros anuais.

 

Para além de ser um investidor forte, segundo a AICEP e com dados do Banco de Portugal, a Alemanha é o terceiro maior cliente das vendas portuguesas (a seguir a Espanha e França), absorvendo 11% das exportações portuguesas.

Basta vermos que em 2018, mais de 21% das compras alemãs a Portugal (com valores a rondar os 1400 milhões de euros) foram em automóveis e outros veículos de transporte. É o segundo maior mercado, nesta simbiose destes dois países, porque a liderar estão os quase dois mil milhões de euros vendidos em máquinas e equipamentos que representam “só” 30% do total de mercadorias exportadas.

 

E podemos ignorar o turismo e as viagens? Não. Em 2018, Portugal faturou 1900 milhões de euros com o mercado alemão.

A ligação económica entre os dois países tem crescido. No turismo, por exemplo, vemos que cresceu mais 10% comparando com os números em 2017, segundo o Turismo de Portugal. Já no cluster automóvel, um dos maiores links com a Alemanha, houve um aumento de 18% face ao ano anterior.

 

É muito impacto para o nosso país. E se olharmos para as maiores empresas exportadoras de Portugal para a Alemanha, ao nível do capital humano e económico, temos nova prova cabal do porquê de nos devermos preocupar com o país de Angela Merkel.

 

Não vale a pena abordar todas essas empresas mas, se olharmos apenas para o top-10, teremos uma clara noção da dimensão que existe hoje em Portugal pela e para a Alemanha.

 

Temos a conhecida Fábrica de pneus Continental-Mabor, em Famalicão, que emprega 2100 pessoas e anunciou recentemente uma expansão de 100 milhões de euros. Há a Gabor com cerca de 1400 pessoas empregadas em Barcelos. A Repsol Polímeros emprega cerca e 1000 pessoas em Sines.

 

No topo dos topos dos gigantes alemães em Portugal temos o Lidl, a Bosch, a VW Autoeuropa e a Siemens.

A cadeia de supermercados alemã Lidl lidera em dimensão humana com mais de 6 mil trabalhadores empregados em mais de 250 lojas por todo o país. A Bosch emprega perto de 4500 pessoas e fechou o último ano com uma faturação de 1,5 mil milhões de euros. A Volkswagen Autoeuropa está em Palmela com 3000 pessoas e ainda possui um centro de desenvolvimento de software em Lisboa. Já a gigante multinacional Siemens emprega mais de 2000 pessoas e exporta para 56 países.

 

É preciso dizer mais alguma coisa para demonstrar o poderio alemão em solo luso? É preciso acrescentar mais factos para entendermos o forte elo de ligação que o nosso país criou, potencia e ganha com a Alemanha? Não creio. Contra factos (números e muitos euros!) não há argumentos.

 

Da recessão alemã nem tudo a extrair é mau presságio. Há um bom exemplo nestes últimos dias vindo da Alemanha.

Regra geral, a história económica demonstra que as respostas a estes casos costumam ser por via da política monetária. No entanto, o Ministro das Finanças Alemão, Olaf Scholz, admitiu publicamente que o seu país tem capacidade para combater uma potencial crise e que poderá aumentar a despesa pública alemã em 50 mil milhões de euros para contrariar o abrandamento económico. Que belo exemplo para ajudar a combater a desaceleração de forma estrutural em, clara e forma literal, união económica monetária!

 

É neste momento que os críticos, eram tantos se recordarmos os tempos da Troika, da Chanceler alemã Angela Merkel têm de “jogar fora” o discurso anti-Alemanha e dar, se forem intelectualmente honestos, os parabéns pelo exemplo da maior economia europeia.

 

Postos os olhos nos números e igualmente no potencial de risco que advém da crise alemã, urge antecipar o que poderá advir de fora contra a subida económica portuguesa que há dias nos foi anunciada.

 

Cuidado, ou em alemão, «Vorsicht», Senhor Ministro Mário Centeno.

 

Vorsicht, Portugal.

 

Cuidado porque precisamos muito da economia alemã para a nossa economia: Lá fora e cá dentro. 

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