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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Daniela Braga fundou a DefinedCrowd depois de ter estado 8 anos na Microsoft. Angariou 12 milhões de euros, quer duplicar o tamanho da equipa e, em entrevista, salienta a discriminação por ser mulher.

Daniela Braga, 40 anos, presidente executiva da DefinedCrowd, diz que é mãe mas que isso não é “de longe” a única coisa que a define. Oito anos depois de ter começado a trabalhar na Microsoft, nos Estados Unidos, saiu para fundar a sua própria startup de análise de dados com recurso a inteligência artificial. Em três anos, angariou 12 milhões de euros a investidores como a Portugal Ventures, o fundo norte-americano de capital de risco Alexa Fund ou a empresa MasterCard. Além de um escritório nos EUA, em Seattle, a DefinedCrowd tem outros três em Tóquio, no Japão, em Lisboa e no Porto. O objetivo para 2019 é o de abrir mais escritórios — o próximo será na Índia –, chegar ao break-even [ponto de equilíbrio a partir do qual o projeto começa a ser rentável] e contratar 70 pessoas.

 

Em entrevista ao Observador, Daniela Braga assume que chegou onde chegou não por discriminação: nem positiva, nem negativa e nem só de género [também por ser académica de base e não empreendedora]. A fórmula para estar hoje a liderar uma equipa de 70 pessoas em três continentes diferentes passou por um doutoramento em tecnologia de discurso, um mestrado em linguística aplicada, um curso de Literatura e Língua Portuguesa na Universidade do Porto e oito anos de trabalho na Microsoft, onde desenvolveu ferramentas de software de linguagem. Além disso, salienta que “saber vender” também foi um dos trunfos. Fundou a DefinedCrowd em agosto de 2015. Tinha 37 anos.

 

“Vou dar-te uma quota, porque normalmente não estás e não tens oportunidade nem competências para chegar aqui. Por isso, vamos criar uma quota para chegares aqui. Nada na minha vida tem sido assim”

 

Há pouco, antes desta entrevista, referiu que sente que tem mais atenção neste evento [Mobile World Congress] por ser mulher.
Na minha carreira, tenho historicamente mais atenção porque sou mulher, mas não necessariamente pela razão que gostaria que fosse. É isso que tenho andado a combater há quase 20 anos (risos) nesta vida. Há toda uma condescendência em relação às mulheres. O pronto, vá lá, coitadinho. A condescendência é uma discriminação positiva. Que também não é bom. Eu, pelo menos, nunca gostei disso.

É tratá-la como uma coitadinha ou ter um cuidado com a Daniela que não teriam se fossem homens? 
Exatamente. Vou dar-te uma quota, porque normalmente não estás e não tens oportunidade nem competências para chegar aqui. Por isso, vamos criar uma quota para chegares aqui. Nada na minha vida tem sido assim. Quando se vai para o mundo real, quando se está a formar uma empresa, não é assim. Tudo começa logo por ir de letras direta para a faculdade de engenharia com uma bolsa em que tenho de provar o meu valor em tudo.

 

Basicamente, contrataram uma equipa de engenheiros porque havia uma tendência na Europa na qual se começava a contratar linguistas. Linguística era uma profissão tradicionalmente feminina, na Europa. Se vais para os Estados Unidos não é assim. Há algumas coisas diferentes nesse aspeto. Mas, na Europa, era uma profissão mais feminina. Foi assim que me disseram: Encontra o teu lugar. Foi como comecei, no ano 2000.

 

Mas não houve então discriminação positiva? Tinha criticado isso.
Não, isto é na parte do empreendedorismo. Isto é o mundo real, não há bullshit [tretas] aqui. Tive investidores na América a dizerem com todas as letras: “Peço desculpa, mas não acreditamos que consigas executar. Não tens uma equipa suficientemente grande para te apoiar, porque não tens experiência em negócios e, na verdade, és uma cientista. Cientistas normalmente não resultam muito bem quando estão a liderar. Mas esquecem-se que, em inteligência artificial, não vejo outra maneira de se ser bem sucedido se não se for bem sucedido nesta área [na academia].

 

Mas isso tem a ver com a formação, não é uma questão de discriminação de género.
Aqui é uma discriminação direta, porque há vários indicadores nesse sentido. Tive outra. Várias indicações de “não há credibilidade para uma pessoa que se pareça como tu”. Se fosse uma mulher mais masculina, mais engenheiro informático, daquele estereótipo das engenheiras, talvez tivesse mais credibilidade. Assim, nem tanto.

 

Tem cerca de 1,75 metros e não passa despercebida. Sente que por causa disso não lhe deram essa confiança?
Foi confirmado em várias respostas diretas e indiretas. Falo muito com outros empreendedores portugueses que estão lá na Bay Area [nos EUA, que inclui Sillicon Valley] e, falando assim mais diretamente, tenho tido de dar muito mais provas. Estou sempre uma série de KPI’s [indicadores de desempenho] à frente para levantar uma ronda [de investimento] porque senão não me a dão. Mas um homem não precisa desses KPI’s. Isso está claro, porque não faço parte do padrão. Não comecei sozinha, mas estou praticamente sozinha desde o início. Não é bem sozinha porque tenho o João e agora tenho uma equipa de liderança muito sólida. Era uma das coisas que, se vires nas empresas tecnológicas, se há uma mulher, é só uma. E fica bem ter uma mulher na equipa de cofundação. É por isso que passei de cofundadora para fundadora. Porque fui sempre eu que consegui trazer o dinheiro para a empresa.

 

Nestas 70 pessoas que vai contratar, tens essa preocupação de ser 50/50, 30/70 entre homens e mulher?
Temos crescido tão rápido que podemos dar-nos ao luxo de procurar na discriminação positiva, que também não gosto. Temos mulheres na empresa mais nas profissões tradicionalmente femininas. Infelizmente, é o que é.

 

Também as áreas de formação assim o mostram em termos de indicadores…
Também é isso, mas também é muito difícil para uma mulher singrar numa empresa. Depois vêm os filhos. Há toda uma série de desculpas de que, culturalmente, a carga cai toda nas mulheres. Sempre. Há todo esse ângulo. Por isso é que digo muitas vezes, entre as entrevistas em Portugal e nos Estados Unidos: em Portugal, perguntam-me sempre o lado familiar, porque é muito estranho que consiga fazer uma empresa com sucesso com uma criança. Mas ninguém pergunta isso a um empreendedor masculino. Ninguém.

 

Há sempre esse ângulo, porque pensam: “Mas como é que é possível? Não é possível”. E depois perguntam: “Mas como é que está a tua filha? Com quem é que ela está?”. Mas aos homens ninguém pergunta uma questão dessas. Mesmo que não seja malicioso, ninguém pergunta isso. Dou-me com os fundadores da Unbabel e outros, mas sobretudo com os da Unbabel, por que somos todos da mesma idade. Não há nada disso com eles, sobretudo com os americanos. Lá evitam perguntar essas coisas. Mas isso também é por causa do excesso de sensibilidade, porque lá está tudo com muita lavagem cerebral para não perguntar certas coisas.

 

Um crescimento esperado de 70 para 150 trabalhadores em menos de um ano

Está a contratar 70 pessoas para trabalhar em três continentes, mas principalmente em Portugal?
Exato. E estamos a pensar abrir outra subsidiária na Índia.

 

Quando é que criou a DefinedCrowd?
No final de 2015, em Seattle. Já estava a viver lá. Este ano fico americana, com a naturalização, vou ter dupla nacionalidade. Mas continuo a sentir-me portuguesa com muito orgulho.

 

Por isso é que há escritórios em Lisboa e no Porto?

É por isso e porque prezo muito a equipa que tenho. O João Freitas, que é o nosso diretor de tecnologia, está comigo desde o início. É quase como se fosse cofundador. Havia um cofundador, tecnicamente, que estava na América, que durou 8 meses na empresa e foi um erro de casting. O João, por outras razões, não entrou na leva da fundação.

 

Incorporei a empresa [em que estava] em agosto de 2016. Despedi-me do meu trabalho bem pago a tempo inteiro, noutra empresa, a voicebox, que depois foi adquirida pela Nuance, no ano passado, e é agora um dos nossos clientes. Acabei por trazer o João da Microsoft.

 

Tens quantos clientes?
Em Portugal, é a EDP e a José de Mello Saúde. Ao todo, no mundo, são para aí 40. Mas são uns 40 que são top, como o Facebook ou a Microsoft.

 

Em 2018, numa entrevista, disse que explicava à sua filha que o que fazia era ensinar os robôs a falar. Atualmente, como é que define o que a DefinedCrowd faz?
À minha filha, explicava dessa forma, mas agora como está mais velha já diria de outra maneira. O que é a IA? É a imitação do comportamento das decisões do cérebro humano. Mas como é que o cérebro humano aprende? Com experiências, com livros, com escolas, com uma vida inteira. Os computadores — os cérebros artificiais — aprendem com dados. E a DefinedCrowd simula esses dados, essas experiências, de alta qualidade. Ou seja, de forma diferente dos humanos. Os computadores precisam de dados muitos estruturados para fazerem decisões. Nós vamos um bocadinho ad hoc e temos outros processos de inferência. Os computadores precisam de muitos dados e muito estruturados. Isto é a combinação de milhares de cérebros humanos, todos juntos. Nós somos os dados, somos a escola dos computadores.

 

Simulas os dados? Não os recolhem?
Simulamos no sentido em que fazemos três coisas: coleção; limpeza e estruturação; e teste. A coleção é quando o cliente não pode tocar nos dados dos clientes e toda esta coisa do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados [RGPD] e do data protection. Eles precisam de criar esses sistemas. O que fazemos é com que estas empresas tenham acesso a alta qualidade de dados, mas é como se fosse dados sintéticos, porque não podem tocar nos dados reais. Mas são feitos pelas mesmas pessoas reais que usam os serviços deles.

 

Ou seja, não tem a ver com a base do trabalho que desenvolveu na Microsoft, de sistemas de texto para voz, mas ensinar uma máquina a pensar?
Exatamente. Como estava a referir, tratamos três tipos de dados. Tratamos voz, texto, imagem e vídeo, estes dois últimos estão na mesma categoria. Em 50 línguas, em 70 países, para um grupo que se chama Neevo, que é a nossa crowd [multidão, para os dados]. Basicamente, passa por todo um processo de certificação e qualificação para entrar nos projetos. Nunca sabem para quem é que estão a trabalhar. Isto funciona como uma linha de montagem, com muitas pequenas tarefas, que todos fazem e, todas combinadas, vão produzir milhares de dados, muito robustos, em muito pouco tempo, em 50 línguas.

 

Ainda faz parte do desenvolvimento do vosso produto, a nível da programação?
Não por esse lado e, por isso, é que era diretora de tecnologia inicialmente. Mas ainda estou muito ligada ao produto. Tem de ser. E os meus investidores gostam disso. Para todos os efeitos, sou a responsável máxima de vendas. E as vendas informam a visão. Também sou a responsável do produto, como Head of Product. Fui sempre. À medida que vamos evoluindo, vou tendo sinais da indústria, dos clientes e das várias verticais e tendências. A visão do produto continua a ser a mesma, mas há adaptações consoante o produto vá ficando mais complexo. Ou outro tipo destas decisões.

 

O que vos fez estar no Mobile World Congress, que é mais virado para o mobile?
Foi com uma delegação com o Estado de Washington. Temos feito algumas. O governo do estado de Washington tem sido excelente. Fizemos várias trade missions [missões comerciais] ao Japão, com o estado de Washington. Esta é a primeira na Europa. Com uma presença europeia tão forte e com investidores europeus não havia assim tanta necessidade. Eles realmente têm um histórico no MWC muito grande. A parte central não é mobile, mas somos uma empresa agnóstica no vertical. A indústria das telecomunicações foi uma área que ainda não aconteceu. Primeiro vamos para o que é óbvio, que são os líderes tecnológicos, os grandes provedores de IA do mundo. A seguir, no ano passado, começámos com a indústria automóvel e de tecnologia financeira: estamos a trabalhar com a BMW e a Mastercard. E, este ano, temos outros verticais expandidos que são as telecomunicações, a saúde e o retalho.

 

Em termos de números. Qual é a vossa faturação?
Não posso dizer muito, mas posso dizer que as vendas em 2018 já chegaram aos cinco milhões de dólares [cerca de 4,45 milhões de euros]. A execução ainda não chegou lá, mas é porque há um atraso. Ainda não chegámos ao break-even. Mas já tivemos ocasiões. Estamos em growth [crescimento].

 

Quanto é que é o investimento nestas 70 pessoas?
Vamos ser 150 pessoas no total. Vamos passar a gastar um milhão de dólares por mês, só em pessoas. Já estamos a ver o retorno muito em breve. Este ano vamos atingir o break-even e 70% da receita vai vir dos mesmo clientes. Vai servir para solidificar o que já temos.

A desilusão com Steve Balmer, antigo CEO da Microsoft, e ir de Letras para Engenharia

Quando é que passou a viver a tempo inteiro nos Estados Unidos?
Em 2012, ainda com a Microsoft. Mudei-me para a China e, da China, mudei-me para Seattle. Em 2013, deixo a Microsoft e vou para outra empresa. Já não aguentava a política do Steve Balmer, sinceramente. Nem vale a pena entrar por aí. Não saí em conflito, graças a Deus, até porque ele estava uns níveis acima de mim. O que aconteceu foi: entrei para a Microsoft e senti que, nos primeiros 5 anos, éramos a empresa mais forte do mundo na minha área. E dá gosto trabalhar numa empresa assim, em que sabes que estás a fazer tecnologia de ponta para o mundo e que o céu é o limite para tudo o que queres fazes. Nos últimos dois anos, mudou tudo. Completamente caótico, sem direção.

 

Mas não sente que a Microsoft mudou entretanto com o Satya Nadella?
O Satya [Nadella] mudou tudo, mas não tive tempo nem pachorra para esperar por essa mudança. Toda a gente me dizia: “Aguenta, aguenta”. Mas não sou assim.

 

Pergunto isto porque a Microsoft, com o Azure, faz coisas muito parecidas com o que faz com a DefinedCrowd, tanto que até estão a ajudar…
Sim. Somos parceiros e clientes.

 

E durante a universidade, trabalhou em quê?
Dava aulas de línguas. Consegui monetizar o meu conhecimento logo aos 18 anos de uma forma muito eficaz. Pensei qual é o meu maior retorno de investimento, que nem sabia o que era na altura com o meu tempo pouco disponível para fazer um curso em quatro anos e, rapidamente, ir para o mercado de trabalho. Precisava de ganhar dinheiro. Portanto, quando fui para Espanha, não seria para um doutoramento dos meus sonhos porque não podia. Não podia pagá-lo. Foi um doutoramento que me colocou na altura como uma perita, com todo este passado misturado de engenharia com linguística, e aprendi também a programar.

 

Em que linguagem de programação aprendeu?
Em C, apenas. Desenvolvi os primeiros algoritmos por regras para o português europeu, do Brasil e o galego. Ainda tive lá uma questiúncula com o governo português, porque meti o galego no meio do português e havia toda a separação Portugal/Espanha. Mas, a verdade, é que depois daquilo o português ficou na rota dos congressos de linguística computacional portuguesa, de Portugal/Brasil. Que era só Portugal/Brasil e o galego passou a entrar. Por minha causa.

 

No ano em que começou a trabalhar com a Microsoft ainda estava a fazer doutoramento nessa área, certo?
A Microsoft descobriu-me em 2006. Fez-me uma proposta irrecusável, nunca mais me largaram e saí da academia para sempre. Deixei de ser professora. Não perdi o bichinho da investigação, mas fui para um grupo de produto com este valor, com este objetivo. Imagina, nunca mais andares a precisar de pedir dinheiro ao governo para fazeres o que queres. Na Microsoft, era melhor, mas também não é bem assim. Quando estás numa empresa deste tamanho estás sempre a fazer pitches de como é que deves e queres receber.

 

O que fazia já estava ligado à inteligência artificial?
Não se chamava ainda, mas já era a mesma coisa .

 

Era o equivalente a machine learning [aprendizagem máquina], então?
Nessa altura, a Microsoft estava na crista da onda dessa tecnologia. Montámos, no departamento de expressão e linguagem, um grupo de 80 pessoas em Portugal, em Redmond — na sede da Microsoft, nos EUA –, e em Pequim, na China. Na altura, não havia conversação, era reconhecimento de voz direto, porque havia o text-to-speech, que era a minha especialidade no doutoramento, que estava a fazer na altura. Ainda não havia a parte de diálogo, porque isso veio em 2011, mais tarde.

 

Estava a fazer o doutoramento ao mesmo tempo. Isso ajudou no trabalho na Microsoft?
Foi muito duro fazer doutoramento enquanto estava na Microsoft, nos primeiros dois anos. Estava em Lisboa, mas ia também a Pequim. Estava a fazer a coleção das vozes. A Microsoft disse que precisava do português e de 26 línguas. Em 2007 mandam-me para Pequim e começo a passar um mês por ano com aquele grupo. Basicamente, ao fim de um de um mês, o meu chefe diz-me: “Queres fazer então o português europeu e do Brasil? Querem fazer as duas variantes aí? Tens noção de que, se vocês falharem”  — tinha um timeline, era muito agressivo — estás na rua juntamente com toda a tua equipa em Lisboa?”.

 

Quantas pessoas eram ao todo?
Éramos uns 5 ou 6. Respondi: não se vão arrepender. Não só vamos fazer todas estas línguas como todas as outras europeias para o ano. Mas eu precisava de recursos e apresentei o plano. Chegámos a ter 30 pessoas. Isto em 2007. Em 2008 depois acabei o meu doutoramento. Pedi ao meu chefe um mês inteiro para acabar de escrever. Fiz uma coisa inteligente no doutoramento, que foi estar a trabalhar na mesma área na Microsoft e publiquei cada capítulo em conferências internacionais. Quando cheguei ao fim, foi basicamente dizer aos meus orientadores, que eram três: “Eu vou compilar os capítulos, porque já tenho revisão de especialista internacional para cada capítulo do meu doutoramento”.

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