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CABEÇALHO

Na crónica ‘Sem Preço’ desta semana, a jornalista Catarina Nunes escreve sobre a corrida ao aluguer de vestuário de luxo e as plataformas digitais que põem desconhecidas a partilhar peças de roupa.

O impensável está a acontecer. Vestir no dia-a-dia roupa que foi usada por outras mulheres é uma opção crescente, que é acompanhada pela explosão de sites que se dedicam a alugar vestidos de festa e roupa prática das grandes marcas de luxo. O serviço que é cada vez mais procurado (em particular por mulheres millennials) acaba de ser legitimado como modelo de negócio, com a atribuição do estatuto de ‘unicórnio’ (empresa avaliada em mil milhões de dólares) à Rent the Runway.

 

A hipótese que aos olhos comuns parece inviável pela falta de higiene é a nova estrela ascendente nos negócios digitais da economia da partilha, que já tornou banal o aluguer de casas próprias a desconhecidos, que pernoitam entre os nossos lençóis e pertences: o Airbnb. O último dos tabus em relação à partilha de bens pessoais está quebrado com a ascensão das plataformas digitais, que disponibilizam não só vestuário para ocasiões especiais como para o dia-a-dia. Algumas delas incluem também malas, sapatos, joias… e roupa interior.

 

Traduzido para português, o nome da empresa norte-americana que é a estrela neste universo (Rent the Runway) deixa claro o propósito: alugar roupa dos desfiles de moda, o que significa ter acesso online a 600 marcas de luxo de vestuário e acessórios através da subscrição de uma assinatura mensal. Dez anos depois de ter sido criada, a plataforma online acaba de angariar 125 milhões de dólares numa ronda de financiamento, em que foi avaliada em mil milhões de dólares, e estendeu os serviços a roupa de luxo para meninas, dos três aos 12 anos de idade.

 

Desde março, a Rent the Runway aluga também roupa de casa, como almofadas, edredons e mantas, numa estratégia que em breve irá chegar à roupa para homem e artigos de decoração. Com 11 milhões de membros, as fundadoras do maior site de partilha de roupa para mulheres já anunciaram o objetivo: ser a Amazon Prime do aluguer, o que deixa em aberto a extensão do serviço a outros produtos de luxo. É levar o desejo feminino de estrear roupa nova todos os meses (semanas ou dias) a outras dimensões onde algumas mulheres também sentem essa urgência.

 

Nos Estados Unidos, onde este mercado é mais forte, juntam-se também o fator de mobilidade que caracteriza as novas gerações millennials (que não assentam durante muito tempo na mesma localização) e as casas pequenas e com pouco espaço para arrumações, que tornam as roupas pessoais e de casa um fardo impossível de acumular. Os sites de aluguer de roupa são a resposta à filosofia de viver com menos, apregoada por minimalistas ou maníacas da funcionalidade dos roupeiros, como Marie Kondo.

 

Seja uma vontade de ter menos ou de variar mais, o que é facto é que o aluguer de roupa atravessa um momento fulgurante. À plataforma ‘unicórnio’ somam-se outras tantas, com ou sem a pretensão de alcançar essa condição. FashionPass, Le Tote, Stich Fix, Tulerie e Vow To Be Chic são alguns dos muitos sites que se multiplicam no universo virtual, onde é possível aceder ao mundo aspiracional das marcas de luxo por uma fração do preço. É o novo luxo de consumir mais e de melhor qualidade com a sensação de que se compra (e acumula) menos.

 

Portugal teve a sua experiência com o Chic by Choice. Criado em 2014, o site limitava-se a marcas de luxo de roupa de festa, vestidos de cocktail ou para ocasiões formais e acabou por definhar envolto em dívidas. Nem lhe valeu a injeção de capital de vários acionistas como a capital de risco do Estado, a Portugal Ventures, que acabou por declarar o Chic by Choice um negócio insustentável. Pelo caminho, as duas fundadoras foram distinguidas pela ‘Forbes’ pela ideia inovadora e acabaram em tribunal a responder perante dívidas de €72 mil.

 

Noutros pontos do globo, porém, o aluguer online de roupa de luxo segue de vento em popa (por enquanto) e desafia o retalho tradicional. Em França, por exemplo, o serviço de luxo Armarium acaba de se instalar nos corredores do Bon Marché e no futuro mais lojas físicas irão potenciar este formato, que permite às marcas receberem uma percentagem sobre o valor da assinatura que a cliente paga ao site ou ficar com uma percentagem do valor da peça alugada.

 

Neste modelo, porém, nem tudo é faturar várias vezes o mesmo vestido ou casaco, nem somar avaliações de mil milhões de dólares, como a Rent the Runway. A coqueluche do ‘limpa a seco e volta a alugar’ já sofre com o lado negro do sucesso, com a multiplicação de queixas de consumidoras em blogues e comentários na Internet. O problema? As penalizações pagas por peças que se atrasam ou extraviam nos correios, quando a cliente fez a devolução no dia certo, que chegam a ultrapassar milhares de euros e até o valor da roupa em causa.

 

Os dois modelos de assinatura mensal previstos (89 dólares - €80 - e 159 dólares - €140, dependendo da frequência da troca roupa) incluem a limpeza a seco, os custos de entrega e de devolução e um seguro que cobre possíveis estragos. O atraso no retorno ou sumiço vale uma multa por cada dia em falta, mais o pagamento até 200% do preço do artigo. Exorbitâncias que a Rent the Runway justifica com os prejuízos que advêm de não ter a peça disponível para a cliente seguinte, na data em que foi solicitada.

 

Mesmo que a economia da partilha precise de afinações, como o Uber e o Airbnb foram tendo ao longo do tempo, o aluguer de artigos de luxo ainda vai criar mais e novas plataformas. Os relógios de luxo é outro dos segmentos onde se multiplicam clubes que permitem às lojas rentabilizarem stock que ainda não foi vendido, por exemplo. Noutros formatos são os colecionadores particulares quem roda e capitaliza modelos que põem no pulso apenas uma vez por ano. Joias de família, obras de arte, mobiliário e todo o tipo de produtos de luxo estão na calha para alimentarem o desejo de usufruir sem compromisso nem esforço financeiro. Assim se desfaz mais uma barreira ao consumo de luxo, que se entrega à democratização.

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