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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

O verão está a correr bem para Centeno. Quase 80% das obrigações da dívida está com juros negativos. A dor de cabeça pode vir no inverno. O tempo de vacas gordas acabou na Alemanha.

O ministro das Finanças tem razões para comemorar. A economia portuguesa cresce há 21 trimestres consecutivos e continuou no segundo trimestre deste ano acima da média da zona euro, segundo os dados divulgados esta semana pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). Os investidores aceitam juros negativos em obrigações no valor de quase €100 mil milhões, ou seja, pagam para ter em carteira 76% do stock da dívida obrigacionista, que é de €127 mil milhões.


O juro nos títulos a 10 anos caiu esta semana no mercado onde os investidores transacionam as obrigações para um impensável mínimo histórico de 0,066%, quase zero (ver gráfico). À hora de fecho desta edição tinha subido marginalmente, estava em 0,1%. Em relação ao próximo leilão de dívida a 10 anos em setembro, que se deverá realizar ainda antes da reunião do Banco Central Europeu, Mário Centeno pode sonhar com a taxa mais baixa de sempre, quem sabe se não pertinho de zero, ou mesmo já em terreno negativo.


Mas Centeno, o presidente do Euro- grupo, tem já poucas razões para sorrir. O motor da economia do euro, a Alemanha, contraiu no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores. Se comparando com o mesmo período do ano passado, estagnou. Foram as más noticias dadas esta semana pelo Eurostat, o organismo de estatística da União Europeia. O pior é que o governo de Angela Merkel hesita em abrir os cordões do orçamento para incentivar o investimento e a procura interna, já que o cenário externo piora de dia para dia com o agravamento da guerra comercial entre os Estados Unidos e a
China. Berlim continua ideologicamente prisioneira do dogma do défice zero. O problema é que quem paga a fatura não é só a Alemanha, mas o resto da zona euro, e em particular os países periféricos. No caso de Portugal, a economia germânica é o terceiro cliente, depois de Espanha e da França, que também registaram abrandamentos.


Uma recessão pode estar a caminho
Mas como se não bastasse a Alemanha, também a Itália dança en
tre crise e estagnação e está a viver mais uma crise política aguda. A toldar ainda mais o horizonte está o sentimento cada vez mais pessimista por parte dos investidores internacionais. Agosto pode ser outro mês vermelho nas bolsas à escala mundial, como foi maio.


Os economistas multiplicam os avisos de que podemos estar a caminho de uma nova recessão e a anterior ainda está bem viva na nossa memória. No radar das preocupações de curto prazo, com o risco de entrada em recessão técnica no segundo semestre, estão oito economias da Europa, Ásia e América Latina.


O debate está particularmente acalorado nos EUA, onde Trump já tuitou esta semana sobre "a louca yield invertida", ou seja, sobre o estranho fenómeno dos investidores exigirem juros mais elevados para deterem títulos do Tesouro norte-americano de curto prazo em relação às taxas que aceitam para a dívida de longo prazo. Os historiadores económicos dizem que, olhando para o passado, quando esta inversão entre os juros de curto e longo prazo perdura, isso é um sinal antecipado de uma recessão. Não imediata, mas no horizonte.


O problema é que essa "louca inversão", total ou parcial, ocorre em 23 economias. Em algumas delas, o risco de entrada em recessão técnica é muito alto, como na Alemanha, Hong Kong e Singapura, e noutras, como no caso da Argentina onde a contração já se estende há cinco meses e a probabilidade de entrada em bancarrota disparou esta semana para mais de 50% , o efeito de contágio nas economias emergentes é enorme. Centeno, na realidade, tem poucas razões para sorrir neste verão.

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