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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Exportações portuguesas em análise com os olhos postos no futuro, por João Manuel Santos da AICEP, na Revista Portugalglobal.

Portugal, um país com elevada abertura comercial ao exterior, e em que as exportações foram, nos anos mais recentes, a componente da procura com maior contributo para a criação de riqueza, atravessa uma crise económica de origem exógena que se reflete negativamente em todos os quadrantes da sociedade. Projeções recentes apontam para uma recuperação lenta da economia, fruto da incerteza da evolução da pandemia COVID-19, mas Portugal mantém os fatores de competitividade essenciais para a recuperação económica, alavancados por medidas de apoio às famílias e às empresas no período pós-pandemia, designadamente através do Plano de Recuperação e Resiliência e dos fundos europeus do Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027.

 

No momento em que se elabora o presente artigo para a Revista Portugalglobal da AICEP, o governo acaba de apresentar o Orçamento do Estado (OE) para 2021, o qual incorpora nas respetivas projeções macroeconómicas, muito dependentes da evolução da atual crise pandémica COVID-19, uma quebra do Produto Interno Bruto (PIB) de 8,5 por cento em 2020 e uma recuperação pela metade (5,4 por cento) em 2021, após crescimentos reais positivos nos últimos seis anos, a uma média anual de 2,2 por cento, e em que as exportações de bens e serviços foram o principal fator de crescimento. A confirmar-se a projeção para este ano, tratar-se-á da maior recessão desde o 25 de Abril e terá uma dimensão superior à perda acumulada entre 2011 e 2013 (menos 6,7 por cento), nos anos da crise da dívida pública.

 

Consequências tão nefastas como as que vivemos, causadas pelo surto pandémico, manifestam-se, segundo o FMI, num cenário de contração económica mundial sem precedentes (menos 4,4 por cento em 2020)[1] em termos de magnitude e sincronização, intensificada pelo confinamento social e fecho de fronteiras que afetou de forma transversal praticamente todos os setores da economia, nomeadamente os mais expostos aos fluxos internacionais de bens e de serviços, com destaque para os setores do turismo e dos transportes. Ainda de acordo com o FMI, também o comércio mundial deverá sofrer, em 2020, uma contração severa, na ordem dos 10,4 por cento, similar à observada em 2009, quebra resultante, na altura, por uma grave crise financeira internacional com origem nos EUA e que por contágio afetou sobretudo o sistema financeiro europeu.

  

A recessão atual, com características diferentes das anteriores, ao tratar-se de um choque exógeno associado a níveis de incerteza historicamente elevados, superiores aos causados pela tensão comercial entre os EUA e a China e pelo Brexit, apresenta uma contração generalizada a todas as componentes da procura, traduzindo-se a redução da atividade global numa quebra projetada de 15,1 por cento da procura externa dirigida à economia portuguesa[2], e, como tal, das exportações nacionais (redução prevista de 22,0 por cento em 2020)[3], com maior incidência nos serviços do que nos bens, refletindo a redução drástica dos fluxos de turismo, principalmente dos provenientes da Europa, com destaque para o Reino Unido, nosso principal mercado emissor.[4].

De facto, desde o início da pandemia, em março de 2020, que a economia portuguesa tem sentido fortemente os respetivos impactos atingindo todo o espectro da atividade económica, desde a economia doméstica e social aos negócios internacionais, nomeadamente ao comércio externo e em particular às exportações de bens e serviços, e cujo choque só não foi mais negativo devido à resposta rápida e de elevadas magnitude e abrangência temporal da política económica e social.

O comércio externo, componente económica bastante sensível a aspetos de natureza política e social, encontra-se na linha da frente entre as áreas mais penalizadas sempre que uma crise se instala à escala global, fruto dum mundo altamente globalizado, com elevada e rápida circulação de pessoas e bens e crescente integração das cadeias de valor.

 

Em Portugal, país com elevada abertura comercial ao exterior,[5] as exportações foram durante os anos mais recentes a componente da procura com maior contributo para a criação de riqueza, aumentando a sua participação no PIB até 43,8 por cento em 2019 (27,3 por cento em 2009).

Contudo, pelas razões anteriormente apontadas, as exportações, com um crescimento real homólogo de menos 22,3 por cento no primeiro semestre de 2020 (crescimentos de menos 18,0 por cento nos bens e menos 31,7 por cento nos serviços) e uma redução de 7,5 pontos percentuais do seu peso no PIB face a 2019, foram nesta fase a componente que mais contribuiu negativamente para a quebra de 9,3 por cento do Produto, no mesmo período.

 

Mas como evoluiu o comércio internacional português de bens e serviços ao exterior ao longo de 2020?

Segundo os dados disponíveis para os primeiros oito meses deste ano, divulgados pelo Banco de Portugal, as exportações portuguesas agregadas de bens e serviços ascenderam, naquele período, em termos nominais, a 47,6 mil milhões de euros, o que representa uma quebra homóloga de 23,6 por cento. No mesmo período, as importações diminuíram 18,4 por cento, totalizando 50,0 mil milhões de euros. Resultou, assim, um défice comercial de 2,4 mil milhões de euros, que compara com um excedente de 1,0 mil milhões de euros em igual período de 2019.

 

A componente de bens, com um peso de 69,8 por cento nas exportações globais e uma taxa de variação homóloga de menos 13,6 por cento, contribuiu com 8,4 pontos percentuais para a contração global de 23,6 por cento, enquanto a de serviços, com uma participação nas exportações de 30,2 por cento e um crescimento de menos 39,7 por cento, contribuiu com 15,2 pontos percentuais. Significa, portanto, que os serviços foram responsáveis por 64,3 por cento da redução global das exportações e os bens por 35,7 por cento.

Mensalmente, a evolução das exportações pode dividir-se em três fases: i) a primeira respeitante aos meses de janeiro e fevereiro, com crescimentos mensais homólogos positivos (tvh média de 2,8 por cento), embora em desaceleração desde novembro de 2019; ii) a segunda fase compreendida entre março e maio, com quebras mensais homólogas históricas que atingiram o pico negativo de 47,2 por cento em maio; iii) e uma terceira fase a partir de junho, que apesar de ainda registar taxas de variação negativas significativas, apresenta uma tendência de recuperação.

 

No que respeita à dimensão da contração em termos de taxas de variação mensais ao longo dos oito primeiros meses de 2020, sobressai a componente dos serviços, cuja diminuição homóloga chegou a atingir 62,5 por cento em maio, em grande medida devido à rubrica do turismo, atividade cujo peso nas exportações totais de serviços ascendeu a 53,7 por cento em 2019 (janeiro a agosto), e que caiu para 39,3 por cento no mesmo período de 2020.

 

De facto, as exportações de turismo assistiram a partir de março a uma redução de que não há memória, com um crescimento negativo de 85,4 por cento em abril de 2020 face ao mesmo mês do ano passado. De referir que a última quebra mensal observada nas exportações de turismo havia sido em janeiro de 2016 (menos 3,6 por cento) e que a maior redução mensal observada desde janeiro de 1997 ocorreu em junho de 2005, quando registou uma variação negativa de 18,6 por cento. Em valor acumulado, de janeiro a agosto de 2020 a redução das exportações de turismo ascendeu a 7,1 mil milhões de euros (tvh menos 55,9 por cento).

 

Para se ter ainda uma melhor noção do impacto da pandemia na procura de serviços de turismo em Portugal por parte de não residentes, em número de hóspedes e dormidas a diminuição observada nos meses de abril e maio ascendeu a 99 por cento.

 

Ou seja, a procura turística por parte de não residentes em Portugal quase desapareceu duma componente que em 2018 valeu cerca de 8,0 do VAB nacional e em que o consumo do turismo no território nacional equivaleu a 14,6 por cento do PIB, no mesmo período.

  

Ainda na componente dos serviços, de assinalar também a quebra de 35,7 por cento (menos 1,8 mil milhões de euros) observada nas exportações da rubrica dos transportes (22,0 por cento do total da componente), nomeadamente nos transportes aéreos (10,3 por cento do total de serviços; 13,0 por cento em 2019), com uma variação homóloga de menos 52,4 por cento (menos 1,6 mil milhões de euros).

 

Pese embora o maior peso da componente de bens nas exportações, o seu contributo para a contração global foi, como vimos, menor.

 

Não obstante, devido, entre outros fatores, à crescente integração e posicionamento das exportações portuguesas de bens em níveis superiores das cadeias de valor internacionais, à quebra do preço do petróleo (cerca de 57 por cento em junho) aumentada pela valorização do euro face ao dólar e às medidas políticas de apoio à crise com impacto na atividade produtiva, entre 16 grupos de produtos apenas o dos alimentares registou uma taxa de crescimento positiva em 2020 (janeiro a agosto), sendo de destacar, no período, as quebras de 1,7 mil milhões de euros (tvh menos 26,5 por cento) observada na exportação de veículos e outro material de transporte, grupo que representou 13,7 por cento das exportações totais de bens, e de 727 milhões de euros (tvh menos 31,0 por cento) em combustíveis minerais (4,8 por cento do total). O grupo de produtos mais exportado por Portugal, o das máquinas e aparelhos (14,3 por cento do total), registou uma quebra de 571 milhões de euros (tvh menos 10,6 por cento).

 

Em termos geográficos, as exportações portuguesas de bens e serviços para a União Europeia (67,7 por cento do total) caíram 20,2 por cento (menos 8,1 mil milhões de euros) nos primeiros oito meses deste ano, salientando-se as reduções verificadas com Espanha (menos 1,9 mil milhões de euros; tvh menos 15,6 por cento), França (menos 1,7 mil milhões de euros; tvh menos 19,4 por cento) e Alemanha (menos 1,6 mil milhões de euros; tvh menos 22,4 por cento).

Quanto aos países extracomunitários (32,3 por cento do total), a quebra foi de 29,9 por cento (menos 6,6 mil milhões de euros), com destaque para o Reino Unido, com uma variação negativa de 2,3 mil milhões de euros (menos 1,8 mil milhões de euros na componente de serviços, que representaram 52 por cento das exportações totais para aquele mercado). Seguiram-se os EUA, com uma redução das exportações de 1,2 mil milhões de euros (tvh menos 30,4 por cento), (ver gráficos 9 e 10).

 

 

Projeções para o futuro condicionadas pela evolução da pandemia

Tentando projetar o futuro, os resultados mais recentes do indicador compósito avançado da OCDE[6], que procuram antecipar pontos de viragem económica com uma antecedência de seis a nove meses, sugerem uma recuperação lenta. Para Portugal, à semelhança das maiores economias mundiais, onde se incluem dos principais parceiros comerciais de Portugal, o indicador voltou a recuperar em setembro, após queda abrupta em abril, embora ainda se mantenha abaixo do nível de longo prazo.

 

Contudo, avisa a OCDE, estarmos ainda numa fase de incerteza muito associada ao ressurgimento da pandemia sanitária e de futuras medidas de mitigação poderem reduzir a atividade económica que podem não estar a ser tidas plenamente na elaboração dos indicadores atuais.

  

Na mesma linha seguem os dados disponíveis que serviram de base às projeções económicas do Banco de Portugal[7], que apontam para uma recuperação da economia na segunda metade do ano, com a generalidade dos indicadores a sugerirem uma retoma gradual da atividade económica, embora se venham a situar no final do ano num nível inferior ao de 2019.

 

A reforçar esta ideia, os dados mais recentes do INE[8], nomeadamente sobre as apreciações das empresas portuguesas relativas à evolução da procura externa, mostram uma recuperação parcial em agosto e setembro, após uma diminuição entre fevereiro e julho. Também as opiniões dos empresários da indústria transformadora dos principais clientes da economia portuguesa sobre a evolução da respetiva carteira de encomendas recuperaram em agosto e setembro, interrompendo a quebra acentuada observada a partir de abril.

 

O comportamento futuro da economia, e das exportações particularmente, está condicionado, naturalmente, pela própria evolução da pandemia, sobretudo em Portugal e nos nossos principais países clientes, com a condicionante de no nosso país uma recuperação poder ser mais lenta devido à nossa estrutura económica com grande peso dos serviços, nomeadamente do turismo.

Deste modo, é necessário salientar que estamos em presença duma crise com origem externa em que os fatores competitivos de Portugal permanecem e que serão essenciais para a recuperação da economia portuguesa, alavancados por medidas de natureza política, nomeadamente no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência de apoio às famílias e às empresas no período pós pandemia, combinados com fundos europeus do Quadro Financeiro Plurianual 2021-2027.

 

 ACEDA AO ARTIGO NA INTEGRA.


[1] World Economic Outlook October 2020 (FMI)

[2] Hipótese subjacente às projeções macroeconómicas no OE 2021 (Ministério das Finanças)

[3] Projeção OE 2021 (Ministério das Finanças)

[4] Segundo dados do Banco de Portugal e do Instituto Nacional de Estatística (INE). Em 2019, as exportações de turismo representaram 20 por cento das exportações totais portuguesas. Alemanha, Espanha, França e Reino Unido totalizaram 53 por cento das exportações de turismo e 51 por cento das dormidas de não residentes, com o Reino Unido, por si, a representar 18 por cento das exportações de turismo e 19 por cento das dormidas de não residentes.

 

[5] 88 por cento do PIB em 2019; 60 por cento em 1995 (cálculos da AICEP com base em dados do INE).

[6] Composite Leading Indicators October 2020

[7] Boletim Económico outubro 2020

[8] Síntese Económica de Conjuntura setembro 2020

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