NewDetail

AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Visita do Chefe do Estado é considerada bem sucedida, mas os empresários esperam que dê origem a menos entraves para aceder ao gigantesco mercado chinês.

Edward Lou, CEO de uma importadora chinesa do setor agroalimentar, está confiante no "potencial" dos produtos portugueses, mas admite "restrições" em trazè- -los para a China, onde as licenças têm sido atribuídas a um ritmo de um item por ano.


"Bons produtos, boa infraestrutura logística, boas pessoas", resumiu o executivo à agência Lusa, sobre uma visita a Portugal, em fevereiro passado, que culminou com a assinatura de acordos para exportação com as empresas Mon- tiqueijo, Sicasal e Gialmar.


Para Edward, o futuro é promissor: "Nos próximos dois meses, teremos mais laticínios, carne e marisco português a participarem em exibições na China". O "objetivo é mais tarde começarmos a importar", apontou.


Mas o compromisso, assinado esta semana durante um seminário económico em Xangai, na presença de Marcelo Rebelo de Sousa, depende ainda do licenciamento junto das alfândegas do país asiático - um processo que pode levar um '"tempão"', descreveu o Presidente da Associação Jovens Empresários Portugal- -China, Alberto Carvalho Neto. "Se continuarmos a celebrar apenas um protocolo por ano, nunca mais vamos lá", afirmou o empresário. "Temos que nos mexer e reclamar mais no relacionamento com a China".


Em março passado, aquando da chegada do primeiro contentor de carne de porco portuguesa a Tian- jin, cidade portuária no norte da China, um produtor nacional celebrou o acontecimento como sendo o "mais importante" para a suinicultura nacional "nos últimos 40

Tratou-se da conclusão de quase uma década de negociações, que culminaram com um protocolo que autoriza três matadouros portugueses a exportar para o país, mas que abrange apenas carne de porco congelada e não transformada.
Enchidos e presunto, produtos com valor acrescentado e que geram empregos, continuam interditos. "A exportação que vem para cá muitas vezes não é direta: vem através de França, Espanha ou Itália, seja na cortiça ou no azeite, eles é que ganham o valor acrescentado", explicou Carvalho Neto.


De "Made in China" para "To China"


Segunda maior economia mundial, a seguir aos Estados Unidos, a China é já o maior mercado de consumo para vários produtos. No espaço de uma década, enquanto as economias desenvolvidas estagnaram, o país construiu a maior rede ferroviária de alta velocidade do mundo, mais de 80 aeroportos e dezenas de cidades de raiz, alargando a classe média chinesa em centenas de milhões de pessoas.


Em março passado, um documento da Comissão Europeia lembrou que o gigante asiático "não pode mais ser visto como um país em desenvolvimento", mas como um "rival económico", e apelou a ações conjuntas para lidar com os desafios tecnológicos e económicos que a ascensão do país tem vindo a colocar.


No entanto, em 2018, as exportações de bens portugueses para a China caíram 21,8%, face ao ano anterior, para 657,8 milhões de euros, segundo dados oficiais. As importações de bens de Pequim ascenderam a 2,3 mil milhões de euros, uma subida de 14,5%, o que representa um saldo da balança comercial negativo para Lisboa no valor de 1,69 mil milhões de euros.


As autoridades portuguesas reclamam, por isso, maior reciprocidade e esperam que o "estreitamento" das relações politicas com Pequim resulte numa maior abertura do mercado chinês aos produtos nacionais.


O embaixador português na China, José Augusto Duarte, afirmou que a visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao país asiático permitiu a Portugal dar um "salto de gigante" nas relações, com a passagem "da parceria estratégica para um diálogo constante", estipulada num memorando de entendimento assinado pelo ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e o Conselheiro de Estado chinês, Wang Yi.


José Augusto Duarte deu como exemplo desse otimismo o encontro entre Marcelo Rebelo de Sousa e o homólogo chinês, Xi Jinping, no Grande Palácio do Povo, no centro de Pequim, que incluiu uma cerimónia de boas-vindas com guarda de honra, salvas de canhão e os hinos nacionais de cada um dos dois países tocados por uma banda militar.


José Augusto Duarte celebrou o "reconhecimento" de Portugal como um "'player global", que "joga em vários tabuleiros da diplomacia internacional", mas espera agora que esta "intimidade" com Pequim "facilite processos de negociação", visando "mais trocas comerciais, mais investimento e maior internacionalização da nossa economia".


Afinal, Lisboa deseja das relações com Pequim "exatamente o mesmo de há 500 anos", quando o navegador português Jorge Álvares desembarcou na província de Guangdong, no sul do país. "Não é propriamente uma novidade: queremos mais comércio, em primeiro lugar", sublinha.


"Os portugueses chegaram cá e queriam fazer comércio. Os portugueses querem vender, querem comprar, querem lucrar com isso", salienta o diplomata.

O compromisso agora assinado, eleva Portugal, no quadro diplomático chinês, a um estatuto que está reservado a países com os quais Pequim partilha questões de segurança, económicas ou políticas consideradas cruciais, incluindo os Estados Unidos, índia, França ou Paquistão.


Sentado frente-a-frente com Marcelo Rebelo de Sousa, o Presidente chinês, Xi Jinping, realçou o "novo ponto histórico" nas relações. Por seu turno, o chefe de Estado português destacou a "passagem para um diálogo político permanente" sobre questões bilaterais e multilaterais.


"Afirmamos pontos de vista, preocupados com a situação internacional, com uma perspetiva multilateral defensora dos direitos internacionais e universais, defensora das organizações internacionais, aberta à construção da paz, da segurança e do diálogo. Preocupada com a liberdade de comércio", aclarou.


José Augusto Duarte lembrou que a assinatura deste memorando "não é de menor importância", já que com a China "toda a gente se quer encontrar". Isto prova que "Portugal não é só 92 mil quilómetros quadrados e dez milhões de habitantes.

 

Portugal é muito mais: é um membro fundador da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), um estado membro da União Europeia, membro da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e membro da organização dos estados ibero-americanos", lembra o diplomata.


Nas relações com a China, a posição de Lisboa surge alinhada com a de outros parceiros europeus ou com os Estados Unidos, que exigem também menos entraves no acesso ao emergente mercado chinês. Na semana passada, Xi Jinping voltou a acenar com o potencial do mercado chinês e prometeu que o país vai aumentar em "larga escala" a importação de bens e serviços.


"A China está disposta a importar mais produtos agrícolas, bens acabados e serviços competitivos", afirmou, no discurso inaugural do Segundo Fórum "Uma Faixa, Uma Rota". Grupos empresariais estrangeiros afirmam, no entanto, que o país asiático está a ampliar as suas importações visando atender à procura dos consumidores e fabricantes domésticos, enquanto bloqueia o acesso a vários setores, protegendo as suas empresas da competição externa.


Bruxelas acusa ainda Pequim de bloquear a aquisição de ativos no país, enquanto as suas empresas, nomeadamente estatais, têm adquirido negócios na Europa, em setores estratégicos. A China tor- nou-se, nos últimos anos, num dos principais investidores em Portugal, comprando participações importantes nas áreas da energia, dos seguros, da saúde e da banca. Mas as autoridades portuguesas querem agora "diversificar a tipologia do investimento chinês", atraindo investimento de raiz, incluindo uma fábrica de veículos elétricos, setor em que a China está a tentar assumir a liderança global.


Em Xangai, o ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, lembrou o compromisso assumido pela liderança chinesa durante a cimeira União Europeia/China, em abril passado, de chegar a um acordo, no próximo ano, para a proteção de investimento recíproco.


"Este quadro institucional cria novas condições, muito promissoras, para a continuação do investimento chinês, designadamente, o investimento de raiz, e, por outro lado, de participação de Portugal, através do investimento e empresas portuguesas, nos investimentos europeus no mercado chinês", descreveu. Santos Silva deixou ainda um recado aos empresários portugueses para que não deixem passar as oportunidades oferecidas pela ascensão da China.


"E muito importante que as empresas portuguesas tenham consciência da vastidão do mercado da China, em particular dos bens de consumo que as classes médias, cada vez mais pujantes, estão a adquirir", realçou. Da moda ao calçado, design, arquitetura ou mobiliário, "este é o caminho de desenvolvimento das nossas exportações", apontou.


Alberto Carvalho Neto considerou, no entanto, que "tem de haver também um grupo de trabalho mais agressivo do lado de Portugal" e do governo de Lisboa. "Nós não damos celeridade e seguimento aos processos", observou. "E preciso dar resposta, e mais rapidamente. Não pode acontecer o que acontece: muda o governo, mudam as equipas todas, e volta-se a começar", contou. "A China não entende isso".

Fosun vê Portugal como trampolim para Europa e Africa


Guo Guangchang, 'chairman' do grupo chinês acionista do BCP e da Fidelidade, diz que Portugal é o pais onde a Fosun mais investiu até agora.

O presidente do grupo Fosun e o maior investidor chinês em Portugal, Guo Guangchang, destacou o país como o mercado "mais importante" para a empresa, logo a seguir à China, destacando o papel nacional no processo de internacionalização daquele conglomerado.


"Apesar de estarmos muito ati- vos nos Estados Unidos, Reino Unido, França, Japão ou índia, há um país que é particularmente relevante para nós, que é Portugal", afirmou Guo, num seminário económico em Xangai, a "capital" económica da China.


Inaugurado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, o evento juntou cerca de 250 empresários chineses e portugueses. Fundado em 1992 por jovens licenciados de Xangai, o Fosun é hoje considerado um dos mais lucrativos grupos privados chineses, numa história que remete para o vibrante crescimento económico da China.


O pais asiático, que até há quatro décadas vivia num universo à parte, mergulhado na pobreza e isolamento, é hoje a segunda maior economia mundial. Em Portugal, o grupo já detém a seguradora Fidelidade e a Luz Saúde, a maior participação no banco Millennium BCP e cerca de 5% da REN (Redes Energéticas Nacionais).


Trata-se de um investimento acumulado superior a 2,15 mil milhões de euros, estimou Guo. "Em termos de ativos, é evidente qual é o país mais importante para nós além-fronteiras", sublinhou.


Mas o empresário, um dos mais ricos da China, citou ainda a importância destes ativos para alcançar mercados terceiros, nomeadamente através da presença da Fidelidade em Africa, ou do Millennium BCP na Polónia. E enalteceu a "estabilidade" e "abertura do país aos investidores internacionais".


"Nos últimos cinco anos, houve uma mudança de governo, mas sem que o ambiente de negócios se tornasse volátil", descreveu Guo Guangchang. Nos últimos anos, o grupo chinês, que tem sede em Xangai, investiu mais de 15 mil milhões de dólares (cerca de 13,4 mil milhões de euros) além-fron- teiras, incluindo nos setores da saúde, turismo, moda, imobiliário e banca, destacando-se a propriedade de empresas como Club Med, Thomas Cook e Cirque du Soleil.


Comparando com Portugal, o empresário revelou ter tido uma experiência "menos boa" noutro país europeu, onde, após as eleições, houve "alterações significativas" na política económica, mas que não se traduziram numa recuperação.


Guo frisou também a "posição importante" de Portugal na Europa. "Apesar de não ser um país grande, mantém boas relações com os outros países, dentro e fora da União Europeia", descreveu. "E um bom ponto para entrar e estabelecer negócios na Europa", acrescentou.


O empresário lembrou que investiu em Portugal durante um período difícil, após o país ter sido sujeito a um resgate financeiro pela troika. "Lembro-me que, da primeira vez que fui a Portugal, o ambiente nas ruas era soturno", contou. "Hoje não, sente-se mais energia. A economia portuguesa está de volta".

Partilhar