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CABEÇALHO

Instalações deixadas pelos militares da Base das Lajes vão ser um centro para empresas de software. A ilha Terceira, nos Açores, está a apostar na programação.

Os militares dos Estados Unidos na Base das Lajes, na Terceira, chegaram a ser três mil. Hoje são menos de duas centenas, espalhados pela ilha. Deixaram para trás carreiras de habitações de ocre desmaiado onde as tomadas servem a voltagem americana e os jardins da frente replicam subúrbios do país natal. É o bairro americano, a periferia das Lajes que há três anos é território militar abandonado. E está prestes a ser reclamado pelos Açores. O plano é ocupá-lo com novos negócios que reponham postos de trabalho extintos com a redução da atividade da base. Sem perder a anglofonia que por décadas ali reinou, vai cha- mar-se Terceira Tech Island.


O projeto faz parte do Plano de Revitalização Económica da Ilha Terceira. Até ao final de 2019, o governo regional quer ter mais de um quarto das 400 moradias do bairro remodeladas e prontas a habitar por quadros de empresas de software, que pretende atrair. Rua acima está a antiga escola dos filhos dos militares, que será um novo centro empresarial: 5200 metros quadrados para 26 escritórios, com sete empresas já captadas - Bool, Glintt, ACIN - iCloud Solutions, Code For Ali, Bring, B-Synergy e Conexall, por enquanto com escritórios na Praia da Vitória. Absorveram já cerca de 40 programadores formados localmente, recrutados à saída dos cursos da Academia de Código, que mudou entretanto a sede para a ilha.

"A cidade da Praia ficou completamente alterada na sua dinâmica pela redução substancial da presença dos americanos. É uma cidade que vivia muito em função da base e que ficou muito condicionada", afirma Sérgio Ávila, vice-presidente do governo regional A diminuição do contingente americano implicou a perda de mais de 400 postos de trabalho portugueses diretos, com "impacto brutal numa ilha com 58 mil pessoas".


A oferta de habitação e de instalações sem encargos ou pré-condi- ções é agora parte do apelo da Terceira Tech Island. Outra são as condições fiscais dos Açores, com IRS, IRC e IVA mais baixos do que em Portugal continental - uma diferença que chega a 30% no caso dos impostos sobre os rendimentos dos trabalhadores e a 20% na carga sobre as empresas.


"Estamos a ganhar exatamente como um programador que estivesse a trabalhar em Lisboa. A diferença é que conseguimos ganhar um pouquinho mais [porque a taxa de IRS é mais reduzida]", diz Luís Serpa, programador recrutado há alguns meses pela Bool, empresa que desenvolve software a partir da plataforma Outsystems e que mudou a sede para a Terceira.


Luís Serpa, formado em Energias Renováveis pela Universidade dos Açores, é do Faial e é um dos primeiros formandos dos cursos da Academia de Código na Terceira. A entidade formadora, a startup Co- de For Ali, é a única habilitada para oferecer os cursos na ilha. Inicia amanhã o terceiro curso intensivo de programadores com 20 novos se- lecionados, no centro da Praia da Vitória. Os custos da formação, cinco mil euros por pessoa, são cobertos pelos cofres do governo regional e pagos num vale a cada futuro novo programador, que o entrega à Code For Ali.

À frente do próximo curso, a ensinar, vai estar Soraia Veríssimo. Esteve na primeira edição, do lado de quem aprende, depois de ter deixado uma licenciatura em Medicina por terminar, em Braga, ao 6.° ano. Foi "uma decisão de tudo ou nada" à qual se seguiu, por acaso, a programação. Foi a melhor no curso de quatro meses da Terceira e acabou recrutada pela Code For AU, em janeiro, num contrato renovável. "Uma coisa que me fez desistir for mesmo a pressão - tinha vidas na minha mão. Agora é uma coisa mais leve e posso ajudar as pessoas na mesma, a mudarem de vida."


Até aqui, 40 mudaram de vida na Terceira. E 38 tinham emprego antes mesmo de terminarem a formação. Só a Glintt, uma empresa com 75% da sua atividade no negócio de aplicações informáticas para a saúde, recrutou metade dos alunos em bootcamp na segunda edição da Academia de Código na ilha. A Glintt também inaugurou instalações provisórias na última segunda-feira, na Praia da Vitória. "Temos já uma presença significativa em termos de apoio aos nossos clientes nesta região - nomeadamente os hospitais e as farmácias. Esta iniciativa insere-se também numa lógica de aproximação aos nossos clientes locais, da região autónoma dos Açores", diz Nuno Vasco Lopes, o CEO da empresa que trabalha para 14 mil farmácias e 200 hospitais e clínicas, com uma presença forte na Península Ibérica. O que atraiu a Glintt "foram as pessoas". "A questão fiscal não foi um fator prioritário para a tomada da decisão", diz Vasco Lopes. A equipa local arranca com 15 pessoas na Terceira.


A semelhança da Glintt, a Co- nexall é outra empresa com operações fortes nas aplicações para sistemas de saúde e com um historial de contratos públicos com entidades açorianas. Tem uma ligação original à ilha Terceira, de onde é natural o fundador, o empresário luso-canadiano David Tavares.

Carlos César, ex-presidente do governo regional, chegou a ser consultor da empresa, que tem também na liderança das operações na ilha um antigo secretário regional da Saúde, Miguel Correia.


Na Terceira está agora sobretudo pessoal de assistência técnica da Conexall. As funções de desenvolvimento estão concentradas na ilha de São Miguel. Mas David Tavares fala em alargar operações. "Queremos ver o que temos, planear no local, e procurar mais pessoas dos Açores. Há imensas oportunidades na Terceira. Provavelmente vamos encontrar 20 ou mais pessoas de grande qualidade. Podemos ter um escritório do mesmo tamanho que temos em São Miguel", avança o empresário.


A ACIN, a operar serviços de cloud a partir da Madeira, também está a localizar parte do negócio na ilha Terceira, onde recrutou alguns dos programadores que vão desenvolver a área de aplicações móveis. "Este tipo de negócio não precisa de prédios grandes ao lado para ter sucesso", salienta José Luís de Sousa, CEO, também com planos de crescimento na ilha. "Se as questões de formação nunca forem desprezadas, têm aqui um projeto de grande sucesso."


Até ao final do próximo ano, a Terceira espera formar ao todo 200 programadores. A jornalista viajou a convite do governo regional dos Açores

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