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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Começou na cortiça, passou pela lavagem de carros, consultoria financeira e imobiliário, até que decidiu meter-se no têxtil e salvar 66 pessoas do desemprego. Criou a Tamanho e Tantos, acabou com a dependência da Inditex e vai contratar mais 30 trabalhadores.

Julho de 2015, dia 30: cerca de 70 trabalhadoras da confeção de vestuário Círculos & Contrastes, de Valongo, decidiram colocar uma carrinha da empresa à porta das instalações para impedir a saída das máquinas de costura, na sequência de um arresto de bens decretado pelo tribunal. "Essa empresa tinha um grande ativo, as pessoas, que aceitaram transferir-se para a que criámos, a Tamanho e Tantos, que comprou as máquinas e começou a laborar, nesse mesmo imóvel, que era arrendado, em novembro desse ano", contou Paulo Jesus ao Negócios.

A Círculos & Contrastes, que acabou por falir, tinha um único cliente, a gigante espanhola Inditex, cuja confiança teve que ser reganhada pela nova Tamanho e Tantos. "Tivemos que começar tudo do zero com a Inditex, da qual continuamos completamente dependentes", lembrou Jesus, que divide a meias o capital da empresa com o seu "sócio e amigo" José Teixeira.

Entretanto, a líder mundial de venda de roupa a retalho começa a desviar massivamente encomendas para fornecedores mais baratos. "A Inditex, que começou a abandonar Portugal, podia sair a qualquer momento, pelo que começamos a fazer o desmame e a arranjar novas soluções", recordou o co-CEO da empresa.

Nova fábrica, outros clientes

 

"Esse desmame começou no segundo semestre de 2018. Hoje não fazemos nada para a Inditex", garantiu. Mesmo sem o seu único cliente até então, a Tamanho e Tantos fechou o ano de 2019 com uma faturação de 1,2 milhões de euros, um valor acima das vendas registadas nos anos anteriores. Como? "Começamos a diversificar. Hoje possuímos uma dezena de clientes de topo, como a Hugo Boss e a Tommy Hilfiger. E temos a produção toda tomada nos próximos três meses", revelou.

Com as exportações a gerarem atualmente 30% das vendas, o empresário quer este ano inverter esta dinâmica, passando a exportar 70% da produção, prevendo quase duplicar a faturação para cerca de 2,2 milhões de euros. Uma ambição alavancada com a nova fábrica, inaugurada há uma semana, em Paredes, para onde deslocalizou a Tamanho e Tantos.

Nas novas instalações industriais, situadas naquela que foi a sede da falida Introduxi e que resultou de um investimento próximo dos três milhões de euros, a fabricante de vestuário de Jesus e Teixeira "passou a ter uma grande flexibilidade, podendo aceitar encomendas para 100 ou 30 mil peças", sinalizou o empresário.

Com 80 trabalhadores, traça novas ambições para a Tamanho e Tantos, a concretizar ainda no exercício em curso: fez uma parceria com a Modatex para criar uma escola de formação na empresa, pretende contratar mais 30 trabalhadores e está "a estudar a criação de uma marca própria de vestuário".

Contas e lavagem de carros

 

Natural de Cantanhede, hoje com 48 anos, Paulo Jesus formou-se em gestão e começou a trabalhar, em 1992, como contabilista numa empresa de cortiça de Santa Maria da Feira, onde ascendeu ao cargo de diretor financeiro. Em 2005, decidiu tornar-se empresário como franchisado da Pronto Wash, negócio de lavagem e limpeza de automóveis.

Ainda nesse ano, criou a marca Park & Wash, ficando com dois – no Arrábida Shopping, em Gaia, e no Parque Nascente, em Gondomar, que ainda mantém – dos sete polos de atividade da Pronto Wash, que prosseguiu já sem a sua participação. Em 2007, abraça um novo negócio, o da consultoria financeira, com uma abordagem similar à que fez à Wash – começou por ser franchisado da Exchange, com uma loja na Baixa do Porto, tendo em 2010 criado a marca Rede Reúne, mantendo-se no centro da Invicta até 2015.

Habituado a trabalhar em processos de insolvência, entrou no negócios imobiliário em 2013, agora já aliado a José Teixeira, "comprando e vendendo imóveis por todo o país". Em 2016, adquiriu a sede da falida Introduxi, "ao Novo Banco, por mais de 600 mil euros".

Fábrica no antigo "ninho" da Chip7

 

"Estou falido. Falidíssimo", confessava ao Negócios, em junho de 2010, Miguel Monteiro, o antigo dono do grupo Avanport, que agregava a Logo Chip, empresa que corporizava o negócio da cadeia de material informático Chip7, que chegou a faturar perto de 90 milhões de euros e ambicionava ser cotado em bolsa. A marca Chip7, que tinha sido dada como penhor à CGD, foi vendida. Todo o restante império faliu, incluindo a Introduxi, a distribuidora informática do grupo, com sede em Paredes. Foi este edifício – com 3.800 metros quadrados de área de construção, distribuídos por quatro pisos –, que Jesus e Teixeira compraram, em 2016, "ao Novo Banco, por mais de 600 mil euros", onde agora instalaram a Tamanho e Tantos.

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