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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

A Fipa traçou como meta para 2020 que a indústria transformadora agro-alimentar e de bebidas se torne exportadora líquida. Jorge Henriques reconhece dificuldades mas confia que isso será alcançado.

O presidente da Federação das Indústrias Portuguesas Agro-alimentares (Fipa) confia que o objectivo de tornar a indústria transformadora agro-alimentar e de bebidas exportadora líquida em 2020 é alcançável. Mesmo confrontado com um défice comercial no sector acima dos dois mil milhões de euros em 2017, Jorge Henriques defende que a meta traçada já há uns anos - em finais de 2014 - é "um objectivo claro".

"Até ao fim de Maio as exportações crescem cerca de 6,3% e estou a falar apenas da indústria agro-alimentar e das bebidas, não estou a falar do sector agro-alimentar, e nós contamos que este seja o ano em que vamos ultrapassar os 5 mil milhões de euros de exportação na indústria agro-alimentar e das bebidas", sublinha. As importações têm crescido a praticamente o mesmo ritmo. "Se não conseguimos matérias-primas no mercado interno" temos de importar mais, refere, mas destaca que "tem havido muita substituição de importações".

"Nós cremos , com esta confiança nos produtos nacionais e com este novo paradigma que existe na agricultura, que vamos equilibrar a nossa balança, aliás queremos ser, em 2020, exportadores líquidos. Este é um objectivo claro", reforça.

O presidente da federação defende também uma melhor organização no que toca à promoção externa de Portugal, criticando o elevado número de entidades envolvidas. "Vamos trabalhar para que a proliferação de organizações que promovem as exportações da indústria do sector agro-alimentar e das bebidas se concentre cada vez mais numa única organização, neste caso a Portugal Foods", afirma. "Nós somos um país pequeno, não podemos ser um país de muitos pequeninos quintais. Isso no passado não nos levou a lado nenhum e hoje temos que aproveitar esta onda: O facto de Portugal e o agro-alimentar – eu não gosto da palavra está na moda, porque é uma coisa passageira – estar a ser reconhecido pela qualidade dos seus produtos", enfatiza.

Nas exportações, refere, "tem havido ganhos de valor, mas também em quantidade em alguns casos. Mas sobretudo associados à qualidade dos produtos, do ‘packaging’, do design. E de segurança alimentar. Estou convicto que esta legião de consumidores que temos vindo a receber, que são os turistas, ficam ligados a produtos nossos".

Constrangimentos e riscos


Jorge Henriques não esconde que existem factores de preocupação ao nível da conjuntura internacional. O fantasma de uma guerra comercial, o Brexit e a renegociação da Política Agrícola Comum (PAC) são tudo factores que podem ter um impacto considerável no sector.

"A questão do proteccionismo preocupa-nos", reconhece o responsável. Quer a ameaça dos EUA de impor tarifas às importações quer a questão do Brexit tem vindo a ser acompanhadas de perto no seio da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), explica.

"Se, por um lado, nós temos de continuar a crescer a nível interno, o mercado doméstico, não obstante este aumento com o turismo, tem uma escala pequena. Temos de procurar fora o crescimento sustentável para esta indústria. Não é no mercado interno que vamos sobreviver nos próximos anos, tem de ser no mercado interno mais as exportações", sentencia.

Ainda assim, Jorge Henriques acredita que Portugal terá capacidade para aproveitar algumas das "consequências da saída do Reino Unido da União Europeia (UE)". O presidente da Fipa recorda ainda que muitas empresas tiveram de "procurar novas geografias" por causa da crise em Angola, que era um mercado muito importante para o sector. A China, os EUA e alguns mercados emergentes começam a ganhar peso para muitas empresas desta indústria, frisa. Outro aspecto positivo desta diversificação também se registou dentro da própria Europa, assinala, com a "transferência de volumes que eram dirigidos a Espanha e que agora estão a ter outros destinos dentro da UE".

Reforço da competitividade


A Fipa define como prioridade o reforço da competitividade do sector. Nesse sentido, Jorge Henriques aponta o dedo a factores internos que, argumenta, afectam a competitividade da indústria portuguesa: as questões fiscais, os custos de energia, a regulamentação excessiva e a falta de infra-estruturas, em particular na rede ferroviária.

A fiscalidade é, aliás, uma prioridade. A redução do IRC, tal como a CIP tem vindo a defender, mas também os impostos especiais. "Os impostos sobre as bebidas e cervejas, são absolutamente destrutivos deste sector", diz.Os elevados custos da energia e a falta de investimento em infra-estruturas, em particular na ferrovia, são outros dois factores que enfraquecem a capacidade da indústria nacional competir no mercado global. Acresce ainda uma regulamentação excessiva. "Nós quando competimos numa economia global estamos a competir com economias que são muito mais flexíveis em algumas matérias", defende.


Apesar de todos estes obstáculos, Jorge Henriques reitera que a meta de tornar a indústria exportadora líquida é possível em 2020.

 

A liderar a Fipa há 15 anos

 

Tem 65 anos, 15 deles passou-os a liderar a Federação da Indústria Agro-Alimentar. Iniciou, agora, novo mandato, que o manterá ao leme da Fipa até 2020. Acredita que ainda não está no limite da idade para se manter neste posto, mas vai admitindo que os mandatos devem ser limitados. Para Jorge Henriques há, ainda, um outro limite: "É quando as pessoas se sentem cansadas". Não é o seu caso. Além de liderar a Fipa é dirigente da CIP. Nascido em Castanheira de Pêra, passou por várias multinacionais. A primeira, a John Deere, permitiu-lhe conhecer o mundo agrícola; depois o percurso transferiu-se para a indústria alimentar, com passagem por várias empresas, entre as quais a Nestlé. Daí assumiu a direcção-geral da Mineraqua, que detém a Água Castello.



O que exige a Fipa até 2020?

 

Descida de impostos, redução de custos na energia, investimentos na ferrovia e uma regulamentação mais leve são alguns dos pontos.

Impostos

A descida da taxa do IRC e a extinção ou reformulação nos impostos especiais sobre bebidas e cervejas, bem como as taxas sobre o açúcar e sal são um dos "cavalos de batalha" da direcção da Fipa para o mandato que termina em 2020.


Custos da energia
A Federação insiste que os custos energéticos suportados pela indústria são demasiado elevados. Dos mais altos da Europa. A sua descida para gerar ganhos competitivos é outra das prioridades. A Fipa quer uma descida de 25% na factura energética.


Investimento na ferrovia
A falta de investimentos em infra-estruturas ferroviárias, principalmente no Norte, é uma das queixas. A concentração das infra-estruturas logísticas na região de Lisboa é outro obstáculo, bem como os preços excessivos nos portos, reclama a Fipa.


Regulamentação
A indústria agro-alimentar enfrenta um excesso de regulamentação que tem aumentado os custos para o sector, considera a Fipa. "Menos regulamentação e melhor regulamentação" é o necessário, sintetiza o presidente da federação.


Concentração na promoção
A dispersão por várias entidades da promoção dos produtos da indústria agro-alimentar no exterior tem enfraquecido esses esforços, defende a Fipa, que quer esse papel concentrado numa única entidade, a Portugal Foods.

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