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Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Região tinha a perspetiva de ter 95% dos hotéis a funcionar na época alta. Mas as rotas aéreas que foram abertas têm poucos passageiros, e nem Espanha está a beneficiar em ter corredores aéreos com o Reino Unido.

Está a ser um verão como não há memória no Algarve devido à covid-19: os hotéis que estiveram em junho com 10,7% de ocupação, não vão agora além de 30%, quando nestes meses de pico costumavam bater quase os 100%. Os chumbos do Reino Unido para corredores aéreos com Portugal fizeram mossa séria na região, levando também a adiar aberturas de hotéis que estavam programadas para estes meses de época alta.

 

"A nossa dependência de mercados externos é muito relevante. Esses chumbos sucessivos do Reino Unido tiveram uma repercussão muito forte a nível de cancelamentos, e também fazem com que as perspetivas para setembro, de início da época turística de golfe, possam ficar comprometidas", adianta Elidérico Viegas, "Com o golfe temos uma dependência maior dos operadores turísticos, e se as restrições continuarem, as pessoas ficam sem perspetiva para decidir vir ao Algarve".

 

Quando foi conhecido o segundo chumbo do Reino Unido, a 26 de julho, deixando Portugal de fora da lista de destinos considerados seguros para os britânicos poderem viajar sem terem de cumprir quarentenas obrigatórias no regresso, "o mal já tinha sido feito com o primeiro chumbo, a 6 de julho, porque os turistas marcam férias com antecedência, sobretudo os britânicos, e com estas restrições muitos que pensavam vir ao Algarve cancelaram e optaram por outros destinos", faz notar Elidérico Viegas.

 

Um dos "males" gerados pelos chumbos do Reino Unido foi o de atrasar a abertura de hotéis. "Em junho tínhamos 70% dos hotéis encerrados no Algarve, e com as restrições do Reino Unido, muitos adiaram as reaberturas. De momento, temos 20% a 25% de hotéis encerrados, quando a perspetiva é que 95% pudessem estar abertos para o pico da época", avança o responsável.

 

As quebras de ocupação dos hotéis no Algarve em julho foram de 60% a 70% comparativamente a igual mês do ano passado, segundo a AHETA. E isto em cima das quebras de 90% registadas em junho "e muito induzidas pela semana dos feriados, caso contrário seriam quebras de 100%", frisa o presidente da AHETA, lembrando que na região "havia a expectativa de que os meses de julho e agosto pudessem esbater as perdas elevadas dos meses anteriores".

 

"Este ano contamos sobretudo com clientes nacionais, apesar de termos alguns estrangeiros. Não estamos fechados para o mercado alemão ou francês, por exemplo, e continua a haver gente a fazer férias no Algarve, mas muito aquém do que era habitual", refere o responsável da associação hoteleira.

 

E o mercado português é manifestamente insuficiente para assegurar um volume de receitas sustentável para os hotéis do Algarve. "Muitos nacionais que vêm ficam em casa própria ou de amigos, outros alugam apartamentos em plataformas, são poucos os que ficam em hotéis", constata.

 

Com a pandemia, não há propriamente destinos a beneficiar do facto de Portugal ter ficado excluído da lista de corredores aéreos com o Reino Unido. "Espanha é o nosso grande concorrente, aqui ao lado, e mesmo com corredor aéreo não conseguiu ocupações diferentes das nossas", salienta o responsável da associação do Algarve. "Há associados nossos com hotéis em Espanha, e essa ideia que ia haver um grande 'boom' por causa dos corredores aéreos com o Reino Unido, não se concretizou".

 

"Estamos a viver um período atípico com esta pandemia, o problema é que as pessoas viajam menos e têm receio de aviões e aeroportos. As rotas aéreas que foram abertas no Algarve funcionam com muito poucos passageiros", enfatiza o presidente da AHETA. "Toda a gente já percebeu que isto vai ter um impacto económico e social muito grande. O desemprego no Algarve subiu 232% até junho", em comparação com o mesmo período de 2019.

 

Com os chumbos do Reino Unido, um efeito tão nefasto como impôr quarentenas é o facto de os operadores turísticos se recusarem a fazer seguros de viagens a Portugal.

 

"Está muito enraizado na cultura britânica fazer seguros de férias, quase ninguém no Reino Unido faz uma viagem sem seguros e a vinda de férias para Portugal depende disso. Mesmo que os britânicos queiram vir, não poder fazer seguros para eles é um grande défice", sublinha Elidérico Viegas.

 

"É claro que esta situação é dependente das restrições colocadas pelo Reino Unido. Se houvesse corredor aéreo, as companhias já fariam seguros para Portugal", refere o responsável.

 

Mas o Turismo de Portugal anunciou esta segunda-feira que o país lançou um seguro de viagem para estrangeiros que planeiem férias em todo o território nacional - o Portugal Travel Insurance - frisando ser "adaptado à nova realidade pandémica provocada pela covid-19", e numa iniciativa associada à RNA Seguros de Assistência (portugaltravelinsurance.com).

 

O Portugal Travel Insurance cobre despesas médicas, cirúrgicas, farmacêuticas e hospitalares associadas à covid-19, além de "despesas de cancelamento, interrupção ou extensão da viagem, também pela mesma pandemia", no objetivo de "garantir a todos os que nos visitam que podem viajar pelo país seguros e com confiança", segundo explica o Turismo de Portugal.

 

Também os testes à covid-19 passam a estar abrangidos no Portugal Health Passport, que é de inscrição gratuita aos "turistas que planeiam vir a Portugal" através do site PortugalHealthPassport. Os turistas podem assim realizar testes à covid-19 e, conforme esclarece ainda o Turismo de Portugal, ter "acesso, a preços previamente fixados, a cuidados de saúde urgentes de elevada qualidade ou a 'check-ups' de cinco tipologioas diferentes, na rede de hospitais e clínicas da CUF, Hospital da Luz, HPA Saúde e Lusíadas, em todo o território nacional".

 

Portugal já teve quebras de 82% em hóspedes de alojamentos turísticos e de 85% em dormidas, segundo a estimativa rápida para o mês de junho do Instituto Nacional de Estatística (INE) - que dão conta de que "a pandemia covid-19 motivou o cancelamento de reservas agendadas para os meses de junho a outubro, maioritariamente dos mercados nacional e espanhol".

 

Segundo o INE, 62,6% dos hotéis em Portugal registaram cancelamentos de reservas devido à pandemia, entre julho e outubro. Em junho, 92% dos hotéis nacionais reportavam cancelamentos, em julho 89%, em agosto 78% e em setembro 70%.

 

"Na hotelaria, o mercado nacional foi mencionado como um dos três mercados com maior número de cancelamentos por 58,2% dos estabelecimentos, seguindo-se os mercados espanhol (56,5%) e britânico (42,9%)", explicita ainda o INE.

 

Em junho, 45,2% dos hotéis nacionais "terão estado encerrados ou não registaram movimento de hóspedes", destacando-se ainda este mês a quebra de 98,2% de britânicos.

 

Apesar da situação da pandemia, a maioria dos hotéis em Portugal (57%) não prevê alterar os preços relativamente ao ano anterior, conforme constata a estimativa rápida do INE.

 

"O factor que está a determinar o movimento da procura neste momento não é o preço. Mesmo que ajustemos os preços em baixa, não é isso que vai fazer aumentar a procura", sublinha Elidérico Viegas. "O principal fator gerado com esta pandemia é o receio de viajar, o preço não é decisivo", conclui o presidente da AHETA.

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