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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

Duplicar as vendas das empresas portuguesas para a América Latina é possível e há um relatório que conta com participação de nomes como Augusto Mateus, Leonardo Mathias ou Francisco Murteira Nabo, empresas como Galp ou Sugal e associações empresariais como a ATP e AIMMAP.

Hoje, o documento vai ser entregue ao Secretário de Estado da Internacionalização. Aponta medidas como a criação de bolsas para universitários da América Latina que poderão tornar-se agentes da promoção da cultura e da economia nacionais.

 

rimeiro dois números: 3,1% e 1,7 mil milhões de euros. Logo depois uma constatação: “Foi este – e apenas este – o valor das exportações portuguesas de bens para a América Latina em 2017. É manifestamente pouco”. E, de seguida uma pergunta: “Como pode a América Latina vir a representar 5% das nossas exportações para o mundo?”.

Foi assim que o Instituto para a Promoção da América Latina e Caraíbas (IPDAL) pegou no problema e desafiou um 'focus group' de especialistas a estudar o problema e a desenhar novas estratégias para as exportações portuguesas conquistarem a América Latina.

 

As ideias foram arrumadas num documento estratégico que será entregue ao Secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, ao final da manhã, depois de três horas de trabalho sobre o tema.

 

Neste relatório fica claro que “a política de exportação portuguesa tem pecado na sua essência”. E aponta-se o dedo a 4 pecados mortais: As vendas ao exterior têm sido pensadas da produção para o mercado e não do mercado para a produção”, “tem-se apostado numa abordagem tradicionalista de venda de produtos que são maioritariamente componentes, ou peças isoladas, em vez de apostar em produtos transformados e já inseridos nas cadeias de valor”, “pouca atenção tem sido prestada às procuras específicas e às tendências emergentes da demanda nos mercados em maior crescimento do mundo, em particular na América Latina” e “na política de exportações de Portugal há uma especialização geográfica excessivamente concentrada na União Europeia”.

 

Mas este trabalho não é um mero diagnóstico e apresenta receitas para dar a volta ao problema. Um dos pontos de partida é dado pelo economista Augusto Mateus, da Augusto Mateus e Associados – EY: “É necessária a participação conjunta das nossas redes empresariais em redes mundiais de produção, distribuição e concessão. (…) É necessário perceber que se cria mais valor misturando bens e serviços e diferenciando essas misturas do que tentando vender simples mercadorias, como lâmpadas ou cadeiras. É imperativo pensar nos mercados a partir da sua própria dinâmica e adaptar a partir daí o formato da produção portuguesa”.

 

Paulo Vaz, diretor-geral da ATP - Associação Têxtil e Vestuário, chama à atenção para “um ativo pouco explorado: “Em comparação com Espanha, Portugal tem uma belíssima imagem em quase toda a região”. Bernardo Ivo Cruz, antigo secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e administrador da SOFID – Sociedade para o Financiamento do Desenvolvimento deixa uma sugestão: “quatro ou cinco empresas que sejam complementares, não concorrenciais, e que possam fazer uma oferta integrada, devem procurar ganhar escala. Com esta capacidade, preenchem mais quota de mercado”.

 

E, com eles, há outras vozes a colaborar no relatório como Murteira Nabo, antigo ministro do Equipamento Social e presidente da Câmara de Comércio Luso-Brasileira, Leonardo Mathias, antigo secretário de Estado Adjunto e da Economia e presidente da Cascais Dinâmica, Luís Fretes, antigo Embaixador do Paraguai e politólogo, Maria Celeste Hagatong, presidente da COSEC, Pedro Paiva Couceiro, administrador do grupo Sugal, ou Rafael Campos Pereira, vice-presidente da AIMMAP - Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal.

 

A inspiração da CPLP

Juntos apontam alguma pistas de trabalho que podem mudar o cenário das exportações para a América Latina. E apontam em diferentes direções, sem esquecer sugestões básicas, como é a ideia de começar pelo princípio e “angariar o maior número possível de dados e a melhor informação sobre o mercado” ou explorar as necessidades do público-alvo, de forma a vender o que a região quer ou precisa de comprar.

 

Na prática isto significa juntar conhecimentos pormenorizados e relevantes sobre as preferências dos clientes, canais de distribuição, potenciais parceiros, trâmites burocráticos, tarifas alfandegarias e legislação vigente nos países latino-americanos. E significa, também, por as associações sectoriais “a dialogar e atuar mais em conjunto, numa cadeia de cooperação que defenda os interesses e fomente os negócios dos seus associados de maneira mais eficiente”.

 

Uma das perspetivas do trabalho sublinha que “Portugal terá mais visibilidade a nível global e portanto uma maior probabilidade de aceitação dos seus bens, quando oferece produtos com tradição, mas que incorporem valor acrescentado, nomeadamente vestuário, produtos alimentares, construção civil e mobiliário.”. “Outros sectores que se destacam são o ferroviário, aeroespacial e tecnologia de informação”, acrescenta.

 

Mais: “A AICEP, os Consulados e as Câmaras de Comércio devem continuar a fazer o seu trabalho de esclarecimento e promoção do tecido empresarial português como é - e não como os mercados o percecionam”. “É necessário desenvolver melhor a marca Portugal através de uma rede diplomática e comercial mais eficiente”, defende Luís Fretes Carreras.

As universidades não são esquecidas, e no diálogo com a América Latina, este documento estratégico fala da “centralidade da componente humana”. As instituições de ensino superior têm na região um destino atrativo para a captação de estudantes que servirão, mais tarde como agentes da promoção da cultura e da economia portuguesa. E, para isto funcionar bem, “devem ser promovidas bolsas específicas para a América Latina, que permitam à Academia portuguesa, concorrer, nomeadamente, com a espanhola.

 

Olhando à região em causa, com realidades distintas, em vez de uma estratégia única, este 'focus group' recomenda abordagens distintas para cada país ou grupo de países que sejam similares ou tenham mercados semelhantes.

No campo das missões empresariais, fala-se em “missões inversas”, o que significa convidar em vez de visitar. Porquê? Para “dar a conhecer as nossas mais valias e aumentar a confiança de quem pretende fazer negócios no nosso país”, explicam.

Outro caminho sugerido é a criação de confederações, a semelhança da que já existe na CPLP, com os países de língua portuguesa.

 

Aos Estados, dizem, compete o papel de “criar uma estrutura jurídica favorável ao empreendedorismo e ao livre mercado”, mas também influenciar a banca para disponibilizar linhas de crédito competitivas e acessíveis às empresas, além da promoção de incentivos reais á exportação e garantias cambiais e seguros de crédito para todos os países da América Latina.

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