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AICEP
Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal

CABEÇALHO

A "nova" Angola poderá marcar definitivamente a necessária mudança na política externa portuguesa e a construção de uma nova lusofonia africana ao fim de 40 anos de incertezas e recuos. Abre igualmente um novo ciclo de oportunidades para os empresários portugueses, particularmente numa altura em que se acumulam os sinais de abrandamento económico na Europa.

Estabilizando a sua relação com Angola, Portugal abre todo um novo ciclo de influência na África Lusófona. Este é o eixo estratégico que tem estado, ao mais alto nível, na base da condução da política externa portuguesa, envolvendo a Presidência da República e o Governo como centrais no que respeita ao continente africano e poderá marcar definitivamente a construção de uma nova lusofonia africana ao fim de 40 anos de incertezas e recuos.


O sucesso desta convergência terá, a médio prazo, reflexos em três áreas fundamentais, nomeadamente:
A abertura de todo um novo ciclo de oportunidade para a economia e empresários portugueses, não só em Angola, mas em toda a África Lusófona, relevante numa altura em que o abrandamento da economia na europa é já uma certeza adquirida;
O reconhecimento de Portugal como parceiro fundamental na "porta de entrada" para a África Lusófona, nomeadamente por países com a República Popular da China - intenção que ainda, na recente visita do seu Presidente ao nosso país, ficou bem expressa - com todo o reflexo político e económico dai resultante;


A capacidade de Portugal passar a ser um ator determinante em projetos estruturais noutros países africanos - nomeadamente na Guiné com a afirmação recente de altos responsáveis que apontam para a necessidade de se iniciar o processo de industrialização do país num quadro político mais estável, como parece ter saído do recente ato eleitoral - ou noutros países africanos, contando com a esfera política de influência regional do Estado Angolano. Aliás, esta dinâmica de afirmação de Angola como potência africana tem sido, cada vez mais, notória na ação política, quer interna quer externa, do Presidente João Lourenço.


Uma intensa ação diplomática
Não foi por mero acaso que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou que se está a iniciar «um novo ciclo histórico» no relacionamento entre Portugal e Angola, na sua recente visita àquele país africano. E ao seu estilo, na hora da despedida foi muito claro nas suas palavras: «aquilo que eu tenho é de agradecer ao povo angolano, ao Governo angolano, muito em especial ao Presidente João Lourenço, a Angola aquilo que foi o acolhimento caloroso - como tinha sido ao primeiro-ministro português, como tem sido a todos quantos vêm de Portugal e como nós gostamos que seja o acolhimento dos nossos irmãos angolanos em Portugal».

 

O que Marcelo fez foi não mais do que dar continuidade ao que o Presidente angolano j á tinha feito, em novembro do ano passado, em Lisboa, aquando da sua visita oficial ao nosso país. E recorde-se, de não menos importância, que foi a primeira visita de um Presidente de Angola nos últimos 10 anos.


E também na altura, João Lourenço deixou bem expresso o que estava para vir: «Vamos olhar para o presente e para o futuro. Numa contagem de zero a 10 não posso dar nota 10 porque o objetivo é chegarmos ao 10, atingirmos a excelência nas nossas relações».


No mesmo sentido foi o Governo português conforme se pode ler no comunicado emitido na sequência da visita de Marcelo a Angola: "A visita de Estado de Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa insere-se num ciclo excecional de visitas ao mais alto nível entre os dois países e no quadro da parceria estratégica e privilegiada entre Angola e Portugal, marcada pelo respeito recíproco e construída numa lógica de interesses comuns e benefícios mútuos".


E importa referir que estas duas visitas foram, talvez, a parte mais visível, da intensa "ofensiva" de Portugal, principalmente neste último ano e meio. Não só neste entretanto o Presidente português esteve em S. Tomé e Príncipe e Cabo Verde - onde terá lugar parte das comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades deste ano - como anunciou a realização de uma cimeira entre os dois países, já em abril, com a cooperação económica, financeira, social e educativa e política na agenda dos trabalhos.


Cooperação essa que, também nós últimos meses, levou a secretária de Estado Teresa Ribeiro a um intenso périplo pela África Lusófona, nomeadamente Angola, Moçambique, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe, com uma agenda muito focada nas questões económicas e do desenvolvimento sustentável.


A este quadro acresce ainda o papel de duas organizações cuja ação é muitas vezes secundarizada, mas cujo contributo tem sido fulcral para o cimentar do tecido económico, social e cultural do espaço da lusofonia, nomeadamente a UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa e a CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Novo ciclo de oportunidade empresarial
Com o foco português em Angola e o empenho político do atual presidente angolano em resolver um dos dossiers mais complexos entre os dois países - o da dívida do Estado angolano às empresas portuguesas - para além dos claros sinais de estabilidade e abertura económica do país num quadro não protecio- nista - parece evidente que se abre todo um novo ciclo de oportunidades para o investimento e para os empresários portugueses, mais ainda numa altura em que são claros os sinais de estagnação no velho continente europeu.


Passe a advertência feita pelo presidente do AICEP, Luis Castro Henriques, quando afirmou que a estratégia que se pretende fomentar para o mercado angolano deve assentar na diversificação geográfica e setorial, para que o investimento não se fique por Luanda ou pelo setor da construção, a leitura deve ser feita no sentido de não cometer os erros passados e que a nova política deve passar por uma ação concertada entre empresários dos dois países e não em lógicas unidirecionais. Aliás, esta realidade ficou bem expressa nos dois fóruns empresariais que se realizaram por ocasião das visitas de Marcelo e João Lourenço, em ambos os países, com o objetivo definido de analisar as relações económicas e empresariais bilaterais e ser um ponto de encontro entre empresários portugueses e angolanos, contribuindo para o desenvolvimento conjunto das economias de Portugal e de Angola.


Neste contexto é também importante recuperar afirmações recentes do comendador Rui Nabeiro, responsável do Delta Cafés, um dos maiores grupos empresariais portugueses com negócios em Angola, por ocasião da visita do presidente português àquele país: «Angola também precisa do suporte que é Portugal, precisa do suporte humano, de empresários que vão para lá, não a pensar só em si próprios, mas a pensarem na comunidade».


E rematou: «Angola é um país grande e Portugal é pequeno, mas Portugal tem capital humano e Angola precisa de reforçar o seu material humano. Será um trabalho positivo (...) tanto na parte política, como na comercial e empresarial, porque com a ligação entre os dois povos podemos fazer na Europa muita coisa».


Portugal parece finalmente ter conseguido afinar o diapasão sobre o caminho político que pretende seguir daqui para o futuro na sua relação com a África Lusófona, encerrando um capítulo de política externa e de cooperação com mais de 40 anos marcados por recuos e incertezas e mesmo com alguns momentos "negros" em todo este trajeto, como foi, por exemplo, a passagem, na década de 90, de Durão Barroso pela pasta dos Negócios Estrangeiros, entre tantos outros.
E se dúvidas existissem sobre a vontade dos políticos, basta hoje olhar para a realidade social angolana e o que representou a visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao país. Basta pegar no exemplo da visita ao Lubango e na imagem de um presidente pendurado no estribo exterior de um carro blindado que levou mais de duas horas a percorrer um trajeto de apenas 11 quilómetros para saudar os milhares e milhares de angolanos que, com um sentimento de "pertença", o quiseram receber. 

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